Alma em Verso
Poesia

Do que se Pode Dizer de um Poncho Pátria – Guilherme Collares

Guilherme Collares

16º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em

Como um rancho abandonado, desprovido da energia vital que o ampara e acalenta, e que se debruça sobre si como uma rês sangrada, estás hoje, em qualquer gancho... ... simbionte!

A mesma energia vital que auxiliastes a manter, sustinha a ti próprio...

E andando na garupa ou mesmo aberto sobre a anca, captaste a energia do universo a que te expunhas:

A energia sonora dos gritos tropeiros, dos cincerros das madrinhas e do canto de quem ronda, quando a noite encerra o pranto no lamento feito berro, pela querência perdida, dos tambeiros.

De tanta herança e fidalguia, por necessidade, mãe do uso, recebeste o nome merecido: ... “Poncho-Pátria”!... ... em expressão singular que fez querência nascer da forma que pendia em cada ombro.

E assim, transcendeste a expressão e foste o próprio pago do tropeiro - fogão... sustento... e rancho – Ao mesmo tempo!...

E soubeste de aguaceiros e geadas, e teu carnal vermelho renascia, volta-dobrando em cada ombro, como um sol nascente que luzia, tremeluzindo a pampa na alvorada.

E entendeste do sereno e céu noturno bem junto a quem sonhou imerso em ti... e mediu em brilhos vivos das estrelas a distância de alguns olhos feiticeiros esperando pelos pagos deste sul...

Dicotômico, és a cor da nostalgia... no azul do céu de inverno no poente... Mas também sabes ser rubro como o fogo que confunde a luz da aurora em sol nascente.

E sempre valeste muito pouco, se apenas comparado teu valor pelo dinheiro... Somente sabe do valor de um Poncho-Pátria quem, com ele, soube um dia desafiar a força bruta do aguaceiro.

Só entende do valor que agrega vida quem, do poncho, fez abrigo das geadas. Vale pouco!... muito pouco!... qualquer plata, quando alguém sente a própria alma enregelada.

E assim estás ficando... ainda és poncho. Mas bem longe dos tropeiros e estradas... A energia a que te prendes, quase finda, desafia hoje bem pouco as alvoradas...

Já também andas mui pouco pelas ancas e nem entendes mais das malas bem sovadas... Em que deixavas o vermelho da baeta como uma ferida exposta, que sangrava.

Hoje vemos teu valor desperdiçado pelos ganchos e varais, quase sem força... Pouco bebes do calor e da energia de uma tropa encordoada nas distâncias...

E serás sempre a energia de quem tem muito pouco, enquanto houver o frio e quem precisa... Enquanto houver gaúcho, serás Pátria... Razão da alma tropeira... Sempre viva.