Monólogo A Pé
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- Don Antonio, toma um trago!... - que eu já tô quaje borracho e vô me empedá de vez! - ... que hoje, o assunto é mui largo e, na botella de canha, quero vê se alcanço um tempo que não seja tão amargo e que não seja tão preto de miséria e escassez!
- Don Antonio, a cosa é bruta!... … nas estância da frontera o mundo perdeu as conta e nem parece que é mundo!... ... a lo menos não é más aquele que a gente tinha!
- Estância grande, já no hay... ... como havia inté bem poco, faz trinta e pico de ano! - Premero, viero os gringo e compraro a estância véia!... ... co’aquele jeito na voz que parece ladainha.
- Inté aí, más o meno!... ... que apesar de tanta granja e planta, que não prestava, tinha a soca das lavora engordando boi e pico... ... e nós inda inté tropeava!
- A Estância do Ñandubay... ... que nascemo e nos criemo, que vivemo e trabaiemo bem más que uma vida intera!... Indiada linda, campera, facera e buena de laço... ... e, facilita, nas criolla, inda corria as chilena nas tropilla cabortera!
- Nem le conto, Don Antonio: um gringo comprô do otro!... ... e esse tal do gringo novo diz que vai plantá só arve!... ... carcule que linda estância virada só em laranjera! - Cada invernada de lujo e boiada bichareda que dava gosto a mirada!... ... Mal virava a primavera, no nascê da ternerada, e era a cosa más linda a lida da nossa indiada:
- Recorrê campo - bem cedo! - reparando a parição... ... pra puxá algum ternero - vaca de premera cria - que, não fosse a mão dos home - justo! - morria trancada.
- Despôs, alguma parida, co’o parto depindurado, que a gente sacava a custo, com dois pauzito – enrolando – a pária da vaquilhona... ... jogando pra’um lado e otro, pra não ficá rebentado.
- E no forte do verão, bichera, banho de gado... ... e o patrão já andava oiando pra o estado da boiada, apartando os mais pareio pra compô uns lote bueno pras tropa de abril e maio.
- E eu vinha – bem de a cavalo! – chamando a ponta da tropa nas estrada da frontera: - Venha, venha, venha boi!... ... levando pra São Domingos o mismo bandeando a linha nas madrugada chuvosa - quietito e sem alarido - por causa da caminera.
- Se era lindo aquele tempo!... - Don Antonio, mais um trago!... ... a canha aviva a lembrança e, por certo, as esperança da morte chegá ligero pra me adoçá esse amargo!
- Não bastava a judiaria da tal plantação de arve e esse tipo desgraçado trocô inté o nome da estância!... “VALE VERDE”
- E o galpão do nosso tempo, se era, então, cosa más linda!... … sempre vinte o trinta home: a peonada ajustada, um domadô, inté dois; uns quatro o cinco changuero; dois casero, a cozinhera...
... que por sinal eu fresteava quaje todo os meio-dia na quinta das laranjera... ... um pedrero, um carpintero; e pros jardim da patroa tinha até um jardinero!
- Pro consumo da semana, e isto só no ano redondo, nós carneava quatro, cinco; as vez até seis capão...
... porque se havia quadrilla, com dez, doze alambradô, o nas comparsa de esquila, com mais quinze o vinte home, demudava pra uma vaca!... ... e mais algum borregão!
- Don Antonio, aquele tempo é que era lindo e folgado!... ... nós trabaiava facero e, quaje todos os dia, só por farra e estrepolia inda quarteava os paisano, oreiando os desbocado.
- Como disse o tal do gringo: “hoje os tempo já são otro!” Tem razão o desgraçado, que as estância tão se indo e a gente, apartado delas, vai vivendo do passado.
- Um passado que era lindo: uma vida de a cavalo!... ... sem mais lei nem lida buena que andá sovando pelego, e ovindo o tirrim da espora contraponteando os gemido da carona contra o basto.
- Don Antonio, toma um trago!... ... que hoje, um pobre peão campero não tem mais sorte que a vila, carroceando a vida ingrata nuns matunguito esmirrado!... - E eu, que me perdi, extraviado... - e já tô quaje borracho! - ... quero vê se alcanço o tempo que não era tão amargo... ... em que era moço e campero e os caminho eram mui largo... ... e as estância da frontera era a própia alma matrera da gente do nosso pago!