Herdeiros de Sina e Gloria
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Ao sorver o primeiro gole do mate que cevei cedo senti o sabor da seiva entrar pra dentro da alma... No terceiro ou quarto gole me perdi em devaneios...
Ouço vozes ancestrais gritando dentro de mim, reacendendo o brazedo do fogo-de-chão da história. A voz do vento, nas frestas, ressoa no pensamento... Da janela da memória esporeio o inconsciente E indago aos meus sentidos se as lutas valeram a pena... Nas paredes velhos trastes... as armas enferrujadas... e retratos de avós centenários com interrogações nos olhos da alma.
“Progresso... progredir é mui lindo!” A inocência trai e adormece a consciência... Com o andar das velhas carretas passaram-se os anos e no ranger gasto dos dias foram gerados estranhos costumes. Transformações consentidas se fizeram no pago com idéias contrabandeadas de outras querências. Manipularam as raízes fazendo acomodações e o gaúcho, solidário, por bueno se adaptou. E não sente que enquanto canta epopéias com saudosismo, herdeiros de heróis anônimos não conhecem o gosto da carne que prolifera “a la farta” nas sesmarias de um latifundiário.
É necessário render tributos aos antepassados, que deixaram de herança uma terra bem demarcada a casco de cavalo, lança e espada em punho, buscando um sonho que deixamos de sonhar.
Hoje, porém, as armas são outras. Trazemos a cabresto o cavalo da razão, mas não o montamos... Empunhamos a espada liberdade, a lança igualdade e a garrucha humanidade, mas não sabemos usá-las!
Nós, filhos dos filhos daqueles guapos - herdeiros de sina e glória - nos identificamos com a ganância da vida competitiva que não nos foi ensinada por eles.
Hoje competimos até para ver quem melhor canta as lidas de campo, mangueiras e bretes...
Filhos do mesmo ventre, herdeiros da mesma querência, alguns tão privilegiados, cruéis sem saber que o são... E estão de olhos vendados para a miséria de tantos que nem lembram que foram valentes, que fizeram história, que foram caudilhos... Outros nem tem tempo pra lembrar de ideais, pois estão sangrando o peito numa luta desigual contra a fome dos filhos... ...os netos dos filhos daqueles guapos.
Como posso lembrar feitos de outrora - ou cantar heróis montados em belos fletes dourados - se olho ao meu lado e vejo um taura, bombachita arremangada, assoviando pachola com o mesmo entono de um galo... Pobre peão... já perdeu a identidade... carregando papelão atrelado a uma carroça como se fosse o cavalo!
Volto os olhos pro infinito e visto o poncho da revolta, ao ver os farrapos de hoje condicionados a marchar como tropa, seguindo um falso sinuelo para um destino sem glória...
O ronco do último mate me desperta e alerta para a luta, que ainda não acabou... Encilho o flete e saio para o campo reculutando memórias.
Hoje, não quero apenas falar da bravura de meus ancestrais e nem cantar chavões literários de duvidosa procedência, pois os clarins ainda vibram: avançar, avançar, avançar! E a história ainda chama a descendência farrapa, - herdeiros de sina e glória - a cerrarem fileiras contra a inércia, para hastearmos em nossas consciências a bandeira da liberdade, com a mesma coragem e rebeldia de um Honório em campo de batalha, como um leão indomável, buscando um futuro de homens iguais!