Um Homem de Ferro
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Toca o fole, bate o ferro, que tem cor de por-do-sol. O ferreiro vai batendo, batendo na sorte maula, que não lhe deu outra escolha, pois foi criado ferreiro, com ferro no coração.
Que ironia Senhor, é a vida deste pobre! Bate o ferro por uns cobres, que não cobrem seu sustento. A mulher lava pra fora e planta horta quando dá. O piá faz changa no povo, pra comprar tamanco novo, e ir na escola estudar.
Ferra a roda da carreta, bate a enxada e o machado, bate a ponteira do arado que de lavrar se gastou. Solda o freio do campeiro que na doma se quebrou, e faz a trempe de ferro que o patrão lhe encomendou.
Passa o dia e chega a noite e não tem hora pra parar, pois prometeu terminar o serviço que assumiu. E só termina a jornada depois que a lua subiu. Cansado deita na sala e se cobre com o velho pala, pois não deseja acordar, a china que já dormiu.
O sono lhe traz os sonhos... Que sonharia o ferreiro? Será que sonha ser rico e poderoso estancieiro? Ou um comerciante abastado, contando muito dinheiro? Pois seus sonhos são humildes, quer pouco pra ser feliz.: Sonha com um fole novo, que o velho já está furado e com três barras de ferro, pra fabricar dois arados.
Canta o galo no poleiro, mas não acorda o ferreiro, que há muito já está mateando, e solito matutando, como vai fazer a marca, que o coronel desenhou. Larga a cuia. Acende a forja e recomeça a labuta. É mais um dia de luta em honra a Nosso Senhor.
- Guri me traz mais carvão. - Depois me alcança a marreta, que o ferro já está no ponto.
“O velho galpão pendido, que agasalha a ferraria, o fole, a forja, a bigorna, a talhadeira, a tenaz. A marreta que sobe e desce, moldando o ferro aquecido:” Este é um retrato querido, que mora em minha lembrança, desde os tempos de criança.
E aquele homem de ferro, com orgulho eu repito: Este ferreiro bendito, que da minha idéia não sai, pois não consigo esquecer... Sinto-me honrado em dizer, era de fato,...meu pai!