IDENTIDADE
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Eu, não sou eu... Eu sou o campo de exauridas terras, natural riqueza que vai se acabando. Entranhas expostas, feridas abertas, que em plagas desertas estão se tornando. As fontes secas, os mananciais drenados, onde os deserdados sem terras, em favelas, o que eram estâncias, acabam transformando.
Eu, não sou eu... Eu sou rio, fora do leito, transportando esgoto. Bombas potentes sugando vidas, via interrompida por lixo e escombros. Um dar de ombros por algo já roto, um direito torto, que não é direito, falta de respeito com a própria vida. Tristes exéquias para um rio morto...
Eu, não sou eu... Eu sou o tempo que se arrasta lento, pra quem vive só na espera. Rápido pra quem se perdeu no tempo, transformando sonhos e quimeras. Castiga como vento de agosto, marca com rugas o rosto e transfigura ranchos em taperas...
Eu, não sou eu... Eu sou o índio, nativo destas paragens, que cativo por alienígenas mensagens e estranhas imagens, foi reduzido, a um ser, triste, sem vontade. Hoje, a beira das cidades, sobrevivente. Vendendo cestos. Pegando restos, sem direito de ser gente...
Eu, não sou eu... Eu sou o piá, das ruas e sinaleiras, desgarrado na sina povoeira, sem petiço, sem gado de osso, pedindo "pila", estendendo a mão. Olhar faminto de atenção e sonhos, estranhos vôos de cola e benzina, triste rotina pra quem só ouve, não!
Eu, não sou eu... Eu sou o peito, anseio da mulher, que acolhe, que apascenta. Mulher, que nas lutas da querência, criou filhos, cuidou de estâncias, pra que seus homens, na sanha guerreira, ignorassem fronteiras encurtando distâncias e fossem prolongando ausências...
Eu, não sou eu... Eu sou o homem que habitava o meio, hoje sem arreios, campeiro sem lida e que, pra ganhar a vida, recorre pelas lixeiras. O que restou de ginete e domador, é puxar uma "gaiota"* e na triste morte anunciada, mora hoje num barraco, papelão e lata, beira estrada...
Eu, não sou eu... Eu sou "alguém" que viaja a meu lado, na estrada vida em que vou tropeando. Que me ampara quando estou cansado e me consola quando estou sofrendo. Que esquece e perdoa quando estou zangado. Que nas "lides" me faz um costado e que estará de pé, quando eu estiver morrendo...
Eu, não sou eu...
*Gaiota: Tipo de carroça rudimentar montada sobre os galhos (gaios) d’uma forquilha