Índio Vago
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Me largaram muito novo, Inda com botão na guampa E desde então, gaudereio Por onde o céu se destampa, Junto ao meu cusco brasino E o pingo gateado pampa!
Agüento sem me queixar As mágoas que cabresteio Porque dentro do Rio Grande Estou bem onde me apeio, O poncho velho é coberta Pra cama estendo o arreio!
Cho-égua! nem acho falta Da comida de panela Tomo mate-chimarrão Como matambre e costela Tenho o pingo que me leva E o cusco pra sentinela!
Na serra, fui peão de estância, Na fronteira, capataz, Qualquer prazer me diverte, Diferença não me faz, Sou sempre o mesmo gaúcho Que fui nos tempos atrás!
Já vivi no campo grosso Mas criei-me em campo fino, E sempre buscando a volta Da trança do meu destino Fui aprender castelhano Na estância dum correntino!
Uma chinoca argentina Me deu um pala franjado, Cruzando a banda oriental Trouxe um chiripá bordado, Cho-mico! este mundo velho, Já muito tenho virado!
Não me importa o que os outros pensem De meu viver de índio vago, Quando a saudade me assalta Afogo as mágoas num trago E aliso o cusco e o pingo Dois pedaços do meu pago!
São dois amigos do peito Que me seguem com carinho, Nos bochinchos e entreveros, Pelas vendas do caminho, Se me alegro eles se alegram E nunca sofro sozinho!
Arrasto a cruz da existência No lançante e na trepada, Tenho esses dois companheiros Que me ajudam na quarteada, Só durmo quando anoitece Sem nunca escolher pousada!
Ninguém sabe bem ao certo Pra onde vou, nem de onde venho É a sina que Deus me deu Gauderiando me entretenho Sem ninguém ficar sabendo De alguma balda que eu tenho!
Já tirei manha de china Que por baldosa era tida Mesmo num seio de laço Achei sempre uma saída E se nascesse de novo Não desejava outra vida!
E um dia, quando morrer Esse é o fim de cada qual, Hão de estar, meu pingo velho Com seu relincho cordial, E o meu cusquinho brasino Chorando meu funeral!