João Barreiro
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João Barreiro...João Barreiro... Velho pássaro bizarro Que dum ranchito de barro, Amassado com carinho, Fizeste galpão e ninho Na maior indiferença, E nem pediste licença Pra mim que sou teu vizinho!
Pois na cabeça de um poste, Na entrada do parapeiro, Te arranjaste bem a jeito Erguendo teu rancho forte, Meio de esguelha p’ra o norte Porque és muito previdente... Eu até fiquei contente; Dizem que dás muita sorte!
Ranchito lindo esse teu Que horas inteira contemplo, Tem bem o feitio de um templo Assim, rústico e bagual, Que o construtor mais genial Por mais sorte e mais paciência Leva toda uma existência Mas nunca fará outro igual.
Por isso fico pensando No poder do criador Que dum pássaro cantor Assim como tu, barreiro, Fez o maior engenheiro Que o céu abriga, chomico Sem mais recursos que o bico E o velho barro campeiro.
Quando piá fui meio diabo Muito bichinho matei, Mas sempre te respeitei Sem saber qual a razão; Talvez, por veneração De piazote malcriado Ao te ver sempre entonado Nesse rancho de torrão.
Rancho bendito, esse teu, Sempre um símbolo de paz Portas abertas pra traz Como ao dizer ao viajante: “Te apeia e chega pra diante pois embora um passarinho sei como é triste o caminho dos guascas que vivem errante”.
E quando a barra do dia No horizonte se desmancha, Ao te ouvir pedindo cancha Num grito de toda a goela Sinto como é rude e bela A nossa velha querência E como é penosa a ausência Pra se viver longe dela.
Eu sinto inveja e não nego Desse teu ninho barreado Que ergueste desassombrado Sobre o moerão da porteira. Pois junto da companheira Que te ajoujou na ternura És a própria miniatura Da fidalguia campeira.
Toda a mística da raça Nesse barro sintetizas E o Rio Grande simbolizas Bombeando as várzeas desertas Pois parece que acobertas Nesse ranchito de luxo O coração do gaúcho, Sempre de portas abertas.