Meu Verso
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Quando te vejo, meu verso, Junto à multidão que passa, Entre os fidalgos de raça Da poesia aristocrata, Meu coração se desata E se larga campo a fora, Paleteado pela espora Da emoção que me arrebata.
Pois tu nasceste num rancho Barreado de chão batido... E assim desapercebido Foste piá, e homem depois, Sempre havendo entre nós dois, Alma de um no corpo de outro, Amor à china e ao potro, E ao berro amigo dos bois!
Eu fui tudo que tu foste Antes de ser o que sou. Pois a vida nos ligou No velho ajoujo da sorte, Esse tento rijo e forte, Sovado a custa dos anos Que acolhera os desenganos Do nascimento até a morte.
Porém, meu verso crioulo Contrariando a velha lei, Eu de ti me seperei; Já não sou mais como tu, Que te conservaste cru, Pois já estou domesticado, Povoeiro, civilizado, E, tu, ficaste xiru.
Por isso é que tenho inveja De ti, meu verso bagual, Que soubeste ser igual Depois que os anos passaram, Pois jamais te embuçalaram Cerceando-te a liberdade, Nem conheceste a saudade Dos que a querência deixaram.
E agora enquanto me paro Numa fila de cinema Tu escutas a seriema Junto a barranca da sanga... E enquanto comes pitanga Nalgum capão solitário Eu vou chinchando o horário Mais preso que boi na canga!
Dá de rédeas no teu pingo, Na direção da querência, Se alguém notar tua ausência Não faz mal, isso tem cura. Vai rever a saracur E o quero-quero alarmento Banhando o corpo emplumado Nas restingas de água pura.
E um dia, quando souberes Que este gaúcho morreu, Nalgum livro serás eu E nesse novo viver Eu somente quero ser A mais apagada imagem Deste Rio Grande selvagem Que até morto hei de querer!