Ode a fronteira Oeste
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Lendária Fronteira Oeste Falquejada a ferro e bala Que em cada marco nos fala De fogo e cargas de lança, Tu me trazes à lembrança Do velho pago abençoado Que o gaúcho antepassado Nos transmitiu como lembrança
Por isso, aqui deste cerro, Lança encravada no chão, Contemplando a estranha visão Que a luz do poente adelgaça Como uma cinta que abraça Circundando lado a lado O solo do meu Estado Berço lendário da raça.
Vejo o chão desta fronteira, Remendado ao léu da sorte, E olhando de Sul a Norte O velho Pago bravio, Donde o Passado fugiu Para uma ausência tão grande E vendo nele o Rio Grande, Sinto um bárbaro arrepio.
E no palco das coxilhas Revejo passar, então, O gaúcho em formação, Selvagem - rude e valente, Sempre atacando de frente No combate desigual Trançando em sangue imortal O poema da casa grande.
Sem conhecer mais divisas Que horizonte é campo nu, Restinga e sombra de umbu, O rancho, a tenda campeira, Junto à china companheira, E acavalo sem marca, O gaúcho era um monarca Não conhecia fronteira.
E sem mais preocupações Nesse imenso paraíso, Peleava, quando preciso, Porque assim se divertia E nessa vida bravia, Destemido e resoluto, Era o dono absoluto Do que no pampa existia.
Rude filho do destino, Dos grandes centros, egresso, No mais íntimo recesso, Eivado de selvagismo, Ser único catecismo, Honra, culto e devoção, Era o amor ao rincão Que amava com fanatismo.
Bastou, por isso, o fantasma, Dos estandartes de Espanha
Anunciarem na campanha Um exército invasor, Para, ao primeiro rumor, Estar de lança na mão Livrando a profanação Da terra em que era senhor.
Nunca ninguém se atrevera A tamanho sacrilégio, No chão, que era privilégio, Do charrua semi-nu E, onde o nascente xirú Já dormia no sarilho Desde o primeiro caudilho Que foi Sepé Tiaraju.
Esquecido nessa hora De lutas pessoais e intrigas, Vendo tropas inimigas Tomar o pago de assalto, Já desde o primeiro salto Se uniram na resistência Porque o apego á querência, Sempre falava mais alto.
Das barrancas do Uruguai, Aos campos de Jaguarão, Encharcou-se logo o chão, De sangue dos estrangeiros, Tombaram muitos guerreiros Mas surgiram as divisas, Mal traçadas, imprecisas, Do fogo dos entreveiros.
E ao longo daquelas linhas Entre cruzes falquejadas Foram ficando as ossadas Do estrangeiro adventício E o pago viu, em suplício, Por dois séculos de horrores, O sangue dos invasores Manchando o solo patrício.
Enquanto a morte voejava Nos campos ensangüentados E assinavam-se Tratados, De duração transitória, Esta linha divisória, Riscada a lança e a fogo, Foi sempre o trunfo, no jogo, Entre a Conquista e a História.
Pois a ganância de posse Desenfreada e insana, Velha ambição Castelhana, Por estes campos lendários, Fez que os deuses sanguinários, Entre anarquia e desmande, Vissem cair no Rio Grande Fidalgos e mercenários.
Assim, o sangue nativo, Correu junto, sol a sol, Ao sangue Luso-Espanhol, Vindo de plagas alheias. Era o pampa um mar de veias, E dessa mescla de morte, O guasca surgiu mais forte Do verde chão das peleias.
Por isso, que ao evocar-te, Lendária Fronteira Oeste, Aqui do teu seio agreste Conclamo esta geração Em prol da libertação, Econômica e social, Que dará ao Homem Rural As rédeas do seu rincão.
E a indiada desta Fronteira Há de atender o apelo E apontar logo um sinuelo Todo o pampa, pura flor, Pois essa tropa primor, Nos corredores da glória, Leva na culatra a História E o gaúcho de fiador.
E bem como seus maiores Na defesa deste ideal, Estará o homem rural Mudando o curso da história, E com elas na memória, Que nem o tempo revoga, Estará na mesma soga A Liberdade e a Glória.
E depois, haverá sempre, Como nos tempos de antanho, O Pingo, a gaita, o rebanho, A prenda, o guasca cantor, A liberdade, o amor, Nesta querência de luxo, Onde só manda o gaúcho, Depois de Nosso Senhor.