Tres Marias
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Velha relíquia gaúcha De pedras acolheradas, Três chinocas encapadas Que rasgando um mundo novo Perpetuaram no retovo E nas cordas resistentes As três raças diferentes Que formaram nosso povo.
Retovada em couro bruto Nas tabas e tolderias Nascestes das correrias De charruas e minuanos Até que os rudes paisanos Aprenderam a manejar-te Te fizeram nobre parte Dos apetrechos pampeanos.
Daí seguiste andarenga A evolução campesina Nas lutas da Cisplatina, Nas invasões espanholas, Onde caudilhos pacholas, No fragor das tropelias, Te chamaram Três Marias Boleadeiras ou par de bolas.
Diz a lenda- que um cacique, Ao voltar de uma peleia, Vendo perto a lua cheia Que se destapava inteira, Na ingenuidade campeira Da supertição charrua, Resolveu domar a lua E atirou-lhe a boleadeira.
Desde então- no céu do pago Daquelas pedra bravias, Surgiram as Três Marias No meio dum fogaréu E tropereando a lo léo, Sempre no rastro da lua A boleadeira charrua Nunca mais voltou do céu.
Essa é a lenda – Mas a história Desse traste de galpão É a da própria tradição Das três pátrias campechanas, As três Querências hermanas Traços do mesmo debuxo, Que moldaram o gaúcho Nas pampas americanas.
Boleadeira de uma pedra, E mais adeate, de duas, Três Marias dos Charruas, Dos andejos e teatinos, Riograndenses e Platinos, Centauros da mesma glória Que amanheceram, na história Boleando os mesmos destinos.
Boleadeira do Rio Grande Que recebemos de herança, Volto aos tempos de criança E até lágrimas enxugo Tropeio- Aparto- Refugo, Na sombra do arvoredo, Onde conheci o segredo Das três pedras de sabugo.
Muitas vezes te larguei. Saindo meio de enfiada, No rei pastor da manada, Bem sobre o meio das cruz Ou num lombo de avestruz. Desses que sai corcoveando Pra rodas- se desasando Num campo de tacurus.
Mas hoje- eu compreendo, ao ver-te Dependurada num gancho Olhando a porta do rancho E ouvindo o berro dos bois, Que já não temos depois, Chegamos ao fim da lida: -Boleamos tanto na vida e a vida boleou nós dois.