10. Tempo e Saudade
I Sinos do Verso GaúchoPublicado em
Busco,entre os acordes do pinho, Dar adeus à tristeza e a todas as incertezas Que em meu peito fizeram ninho. Busco entender a vida, Passando tempo e saudade...
Encilhei flete,calcei esporas, Mirei estradas,e parti... Sem rumo,sem medo! Poncho estendido sobre o lombo do baio Sombreiro largo a cobrir melenas E um trote manso a seguir luzeiros De sóis,luas e candeeiros Que em noites sem brilho Clareava as sangas estreitas De onde uma vez ou outra Tirava pra o meu sustento
O minuano do agosto sopra forte... E a alma triste de um campeiro Segue caminhos sem fim...
No rancho onde fiz morada Deixei os lábios da amada E o riso largo do piá, Que derramou lágrimas tristes Quando parti,querendo ao mundo me provar, Provar que é mais forte o pampeano, Que não se entrega aos lamentos, Não “ froxa “ rédeas,nem tentos, Pra de amores cuidar.
Entre um trago e outro, Vou remoendo lembranças,que deixei pra traz... Do amor deixado no catre Que hoje,segue perdido Na ausência dos meus mates Que sorvo solito a mirar estrelas Sob o sereno das madrugadas.
Num pealo certeiro A solidão,sem pena, Botou buçais em meu peito, O coração,se um dia teve asas, Foram cortadas pelo fio da espada Carregada pelo tempo, E os sonhos,se foram a-lo-léu, Tornando gris,um mundo que um dia teve cor.
Os calos nas mãos... O corpo judiado... Marcas da lida, De tantos e tantos potros quebrados De mangueiras e galpões levantados Por este homem,hoje destinado A andar,andar e andar...
Não sei se o pano da bombacha, Aguentará muito tempo, Não sei se o poncho vestido, Aguentará as geadas, Não sei de mim, Não sei de nada, Só sinto as lágrimas derramadas E as lembranças, Emolduradas em meu peito, Se botarem a corcovear.
As milongas que dedilho Já não podem me acalmar, Os dedos enrrigecidos Muito frio,estremecido Não consigo mais tocar...
A visão fica turva... O ar escasso... Sinto falta dos abraços E do riso do meu piá, Do doce beijo moreno Da simetria de um corpo pequeno, Que eternamente quis me amar.
Bombachas e palas brancos Se aproximam de mim... Dois seres bem pilchados, Asas batendo, E exalando aroma,de puro alecrim...
Soltaram-se as amarras
Que aprisionavam meu peito... O baio,em disparada,vai percorrer sesmarias Meu corpo judiado, Por entre o verde dos campos, Fará brotar maçanilhas, Fará cantar tentilhões, Que revoarão os galpões Da minha antiga coxilha.
E aqui,dos confins do firmamento, Vejo meu filho brincar... Minha mulher plantando flores, Chorando aos prantos,de amores Dizendo...que vai me esperar.
Vou abrir novas estradas, Entre a terra,e os céus... E me fazer primavera, Para tocar os seus rostos Com perfume de azaléias, Bordar no manto da noite, A inicial dos seus nomes, Provar que um homem chora, Que um homem ama, Mesmo distante dos seus, Pois vou guiando seus passos, Seguindo de longe seus rastros, Sentado a direita,de DEUS!