Sorvendo sonhos
Jéferson Rogério Valente de Barros
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Cevei meu mate de espera Com a erva dos anseios, Para sorver despacito Cada gole de quimeras.
Afetuosas mãos maternas Me mostravam o mister: Gestos meigos, delicados, E uma voz de acalanto Embalavam meus sentidos No aprendizado do amargo.
As mesmas mãos maternais, A mesma voz de acalanto, Perenizaram em minh’alma Uma imagem, um modelo, Um exemplo de carinho
Cresci espiando seu desvelo Às minhas necessidades. A via sonhar meus sonhos, Sem ao menos perguntar-lhe Se acaso ela não sonhava
Suas ações me mostraram A amplitude da vida; Os caminhos a seguir; Como desviar dos perigos; Como levantar a cada tombo.
Tão grandes lições, Que me foram ensinadas Com a mesma simplicidade De quem ensina os segredos De um chimarrão bem cevado
Tão logo me senti forte, Chimarreei meus sonhos No mate que eu cevei...
Testei minha força Segurando o vento das ânsias; Pintei meus quadros Com a aquarela de matizes Que o mundo me fez presente; Chorei tristezas e alegrias, Juntei pedaços do coração Ao final de cada amor infindo.
Mas segui trocando a erva, E sorvendo a vida larga Em cada cuia servida.
Porém, roncou o mate! Os sonhos se atropelaram!
Despertei dos devaneios E me vi frente ao desafio De ser responsável Pela obra maior da criação Que crescia em meu ventre.
Senti as asas pesadas Pra o meu vôo libertário. Senti um sabor amargo Na doçura que sorvia. Senti raízes crescendo E me prendendo ao chão.
Não seria mais passarinho A alegrar o arvoredo Com meu canto juvenil. Agora eu seria árvore, A nutrir com minha seiva E aninhar com meu regaço.
Então, fui folha sapecada Pelas chamas do carijo. Depois de solta dos galhos, Sofri nas mãos de pilão, Até receber o carinhoso abraço Da água que me aquecia...
Ferveu a água e queimou a erva, Mas mudei a cevadura...
Tal qual uma fênix, Das cinzas de minha alma Que queimara em incertezas, Renasci mais forte No semblante de meu filho.
Este pequeno ser Que rege meus dias, Me fez enfim entender Os gestos delicados, As afetuosas mãos maternas, A voz de acalanto, O desvelo...
E novamente cevo meu mate Com a erva dos anseios, Para sorver despacito Cada gole de quimeras...
Mas não são mais, Apenas, Os meus sonhos.