Caçador
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Sou um caçador de fama Lá de São José do Ouro Mato coruja de dia Daquelas que faz agouro Há pouco tempo matei Somente com um estouro Um lebrão de trinta quilos Que ainda me resta o couro.
Eu não gosto de contar Porque a indiada faz troça Certa feita numa tarde Quando eu vinha da roça Liquidei um tatuzito Da casca não muito grossa Que arrastei como uma tora Pois não coube na carroça.
Tiroudo bolso um espelho Desses de china pelada; Era noite enluarada, Nem precisava de isqueiro; Passou uma água de cheiro No pescoço e no sovaco, E pensou, hoje me atraco, Como índio tarimbeiro.
Mas a desgraça é cosquenta Pra um índio que tem zipela; Logo em baixo da janela Que o chinaredo proseava, O Sidraquinho ajeitava Seu cabelo mui contente Quando repentinamente Um grande banho tomava.
Logo viu que era urina Pois sentiu na boca, o sal, Relinchou como um bagual Com a camisa ensopada; -Quem foi essa desgraçada, Que a bexiga não controla? E arrancando da pistola Atirou sem ver mais nada.
Gritou para o Nicanor, Seu amigo mais chegado, Mas o negrinho enfezado Num namoro que tentava Se ouvia, nem ligava, Pros apelos do vivente; Assim, mui tristemente, Para o seu rancho rumava.
Era uma noite de agosto Cobriu de neve a campanha Por isso uma de canha Golpeava a cada segundo, Sua camisa “Volta ao Mundo” Tremia junto com o couro; Se o índio não fosse touro Tornava-se um moribundo.
Com a cabeça mais tonta Que gaúcho em discoteca Puxou a bombacha sem cueca, No estilo do bitico, Seguia o índio nanico, Mais ligeiro que uma bala, Quando seu pescoço estala, Na forquilha de um angico.
Seus urros foram tão fortes Que deu para despertar O velho parente Oscar, Que chegou correndo tudo, E retirou meio mudo O gaúcho da desgraça, O qual disse, na cachaça, Eu não sou muito peitudo.
Pra levar o índio pro rancho Riscado de bandonion, Pulou dezoito sangões Quinze valos e um poço, Lhe doía, osso por osso, Rangia os dentes de brabo, E gritava;-Tem o diabo, Nesses bailes do João Grosso.