Alma em Verso
Poesia

Flor de Liz

João Antônio Marin Hoffmann

Publicado em

João Marin e Sebastião Correa

Quando o sol vai repontado Pela lua no horizonte... Na sombra d’um tarumã, Me bombeiam d’outro lado Teus olhos de picumã, Quando a cuia, já cevada, Nas tuas mãos enlaçada Vem na minha direção...

Esses teus lábios carnudos, Que emolduram teu sorriso Fazem os meus jazerem mudos... Abro as cancelas da mente Num pensamento incontido, Quando teu cheiro trigueiro Feito flor de cortiçeira, Me chega d’uma maneira Confundindo meu sentido...

Quando estendo minha mão, Indo ao encontro da tua, Eu vejo o sol e a lua Na cuia de chimarrão. Ao toque dos nossos dedos Esqueço todos meus medos E desvendo teus segredos Ao ouvir teu coração.

Teus olhos falam por ti. E ao falarem dizem coisas Tão bonitas... Tão bonitas... Tuas pupilas aflitas Entreabrem-se, ligeiras, Eu as sinto feiticeiras Me envolvendo, sorrateiras, Seduzindo meu olhar.

Mateamos enamorados... ...É mais um final de tarde. No pinheiro, em frente ao rancho, As curucacas em alarde Festejam a primavera Que mal acaba de entrar, Prenunciando ninho novo E rebentos prá chegar.

Na coxilha o touro berra E escarva a terra vermelha. A natureza é centelha Que acende a vida na pampa; Roupagem nova e a estampa De quem vestiu-se prá festa, Os grilos afinam o canto Prá o início da seresta.

O meu instinto de fêmea Faz sentir-se em teu olfato, E o teu instinto despertas Quando a mão se faz contato, Se demorando no enlace Da cuia, no vai-e-vem Aquecendo-se também Do calor que sobe à face.

Então me declaro tua, Chinoca –Mulher gaúcha! Confidente e companheira, Amante, esposa, parceira, Disposta a trazer ao mundo Teus herdeiros deste trono, Pois és meu homem... Meu dono, Nosso amor não tem fronteira.

No teu corpo Flor de Liz , Feito potro redomão Me boleio sem destino... Uma cama de campanha, Candeeiro lusco fusco... Silhuetas estampadas, Ganham vida espelhadas Na parede do galpão...

Meu sonho, feito semente, Fez estufa do teu ventre, Dando formato de mundo (Foi minguate e foi crescente) No fruto que gera agora. Traz ânseios pros meus dias, Vida nova neste rancho E mais luz na minha aurora.

Seguiremos, vida afora, Felizes nesta jornada... Um grito de quero-quero, Apregoa ao quatro ventos Desde o campo até a cidade, Que nosso amor, é verdade, E há de ficar por herança, Neste fruto que é certeza D'um nova realidade!!!