Noite Eterna
O velhito, frente ao campo sem olhos para enxergar. O tempo, no seu rodar foi lhe sombreando a visão. As cousas do seu rincão, depois de oitenta janeiros, como o apagar de um candeeiro, ficaram na escuridão.
Quanta imagem na memória ele gravou tempo a dentro. Na lida desde pequeno até ser moço e campeiro. Quando encilhava, faceiro, era um gaúcho na estampa, distorcido, cara franca, serviçal e companheiro.
Mas, o tempo dando voltas, - no seu trabalho de campo - envelheceu para o mundo. Já com pouca serventia, às vezes ela saía montando um velho sogueiro, recorria algum potreiro e voltava ao fim do dia.
À noite, chegou mais cedo sem dizer porque motivo, seu olhar de peão altivo, escureceu aos pouquitos! Nem mais podia solito o seu mate preparar, porque a noite em seu olhar foi descendo de mansito.
Agora, os anos gastos, no pára-peito das casas, sua alma abre as asas na direção do infinito. E sonha andar despacito tropeando pelas estradas, lembranças enfumaçadas do tempo em que foi mocito.
Nos olhos não há mais vida para expressar a visão. Da luz para a escuridão num derradeiro atropelo. Não ficou nem o sinuelo de alguma réstia de céu, e no lugar do chapéu melenas de branco pêlo.
As mãos, que trançavam cordas com perfeição e destreza, tem marcas das asperezas da antiga sabedoria; Pois guarda no dia-a-dia as lembranças desse tempo, para servir-lhe de alento nessa noite de agonia.
Apagaram-se as auroras e o mundo ficou escuro qual uma noite sem lua. Mas, no íntimo campeiro que teima em sobreviver, troca seus olhos de ver, por olhos de imaginar e a carência de enxergar pelo dom de perceber.
Os ouvidos sempre atentos norteiam os seus instintos. Sabe os sons, todos distintos e memoriza as imagens; Os bichos, sua linguagem, os arroios, as cachoeiras, noites de estrelas faceiras, as tormentas do clarear dos dias e os verões das mormaceiras.
Por isso, ao final das tardes quando o dia vai morrendo, ele se encontra sonhando diante da imensidão. Embora sem a visão lhe restaram outros sentidos, e os caminhos pressentidos povoam a imaginação.
E assim, tateando no escuro conformado, passa os dias. Ruminando nostalgias numa penosa aparência. E nesse mundo de ausência, caminha para o final ansiando o cocho de sal na luz da eterna querência.