Afogados
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Mescla de barro e taquara Entaipei as quatro paredes, Cobrindo, devagarito, com feixes de santa-fé. Com leivas de tabatinga Bem batida... bem sovada... Fiz o piso, o fogão e o primeiro chimarrão Que se emborcou numa mão Numas dez léguas quadradas.
Arei a terra pro milho, Botei a vaca de leite e engalinhei o terreiro. E nas tardes de longos mates Pensava, com o olhar distante, Neste chão que Deus me deu... Além da sanga dos fundos, Além do rio e dos montes, Além... bem além do horizonte, Caramba! Tudo era meu!!!
A geada mais caborteira Do dia mais frio de agosto Me encontrava aconchegante Ao redor de um fogo de angico Que largava, impertinente, faíscas guapas de quentes, Pelas rugas do meu rosto. E o silêncio da coxilha quebrou a primeira vez Com o alarde do quero-quero; E um troteado bem distante Mostrava que um visitante se achegava, de mansito!
Era um índio da cidade Desses de terno e gravata Que pra nós é diferente Desses que, a primeira vista, Até nos causa a impressão De que já vão pondo a mão, Limpando o bolso da gente!
Sem mesmo apear do cavalo Gritou-me lá da porteira: -Pras bandas cá de Cruz Alta, Num tal de Passo Real, Ergueram uma taipa bem grande E um naco desse Rio Grande Vai ficar dentro do açude; Tua plantação... tua encerra... Tua casa e toda esta terra Vai virar lama... no fundo!
Sem entender patavina, Peguei das mãos do vivente A tal desapropriação... Com letras que me diziam que logo construiriam Num lugar perto do povo Um cercado e um ranchinho Pra que eu criasse uns bichinhos E plantasse a horta de novo.
Num “se vamo”, alcei os trastes E galopei pro povoeiro. Sem lar... com pouco dinheiro... Mas com fé nessas promessas!
Adeus meu rancho sapé... Meu milho de saraquá...
Além de levar saudades Levava, presa na sela, A vida vã das favelas Que nos impõe a cidade!
Meu Deus! Que os rumos são muitos Na direção do horizonte. Mas todos, lumes de sonhos Mesclado a medos medonhos De se morrer de ansiedade!
Mentira! Tudo mentira.... Foi pura politicagem!
Pois já passam mais de anos Que ando margeando cidades, Procurando autoridades sem nunca ser recebido E sentindo barbaridade! Na entranha xucra do peito Que o homem não tem direito Nem mesmo ao que é propriedade!
Andejante das calçadas Constituí-me um teatino, Tendo por sina e destino Escritório de governantes; Mendigando entre os mandantes O tal “direito e garantia”, Trocando meu próprio mate Por tarefas e biscates Que changueiam a “bóia” do dia.
Nas buscas de um andarilho Quantos valores se perdem Por entre os rumos que apontam Sempre um ponto no horizonte Que não se pode chegar...
E quando a saudade açoita, Paro-me a pensar, com mágoa, Que um mundo no fundo d’água Foi o chão que Deus me deu...
E que além da sanga dos fundos, Além do rio e dos montes, Além... bem além do horizonte, Caramba! Tudo foi meu!