Pechinchas
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Ainda a pouco, Nas avenidas da cidade, Um índio velho oferecia, em altos brados, Quinquilharias que a ninguém interessava:
- Olhem... Estou vendendo uns trastes de couro bem curtido E lonqueado por meus braços de guasqueiro, Uma sela, uma chincha e um baixeiro, Além do relho e um buçal para domar.
- Tenho também... Um laço por sovar, Rédeas e freios, um pelego e um chergão, Que hoje são trastes de estorvo pr’este peão Que não tem mais cavalos pra montar!
- Vejam... Uma faca talhada por ourives, De cabo e de bainha feito em prata, Mas que não passa de mais uma sucata Que a sociedade proíbe-me de usar!
- Vendo barato... Pra quem quiser comprar, Pois na mesa desse antigo peão campeiro, Pela sina infeliz de biscateiro, Já não há quase mais carne pra cortar!
- Quem vai querer...? Um velho par de esporas sem rosetas Que se gastaram no “mól” dos aporreados, Correias secas e o papagaio enferrujado Pela falta de rumo e de tropeadas!
- Um par de botas... Couro de búfalo, riscada De banhados, capões e unhas-de-gato, Pois que me adiantam se deixei os matos E no asfalto não tem barro nem aguadas?
- Aqui está... Um lenço rubro...maragato, Que o tempo maula o tornara desbotado, Mas que foi minha bandeira no passado E ideologia fanática de moço.
- Uma bombacha... Favo de abelha, em pano grosso, Eterna companheira nos cambichos, Mas que já não passa de gozo nos bolichos Por aqueles que taxaram-me de “grosso”!
- Ainda tem mais... Uma guaiaca de couro de capincho Que guardava as patacas das esquilas, Mas que hoje não enxerga nem os “pilas” Das changas indigentes da cidade.
- Tenho um pala... seda inglesa... uma raridade! - Um chapéu... Mas esse eu não vendo, Pois, infelizmente, dele ainda dependo Para colher esmola e caridade!
- Tenho ainda... Uma bomba de prata desgastada Pelo sumo da erva e da saliva.
- Uma cuia... que conserva ainda viva Nos vernizes do bojo as tradições. Quero vende-la, Pois meus poucos e tristonhos chimarrões Que a erva misturada proporciona, Não tem mais o gosto da brasa e da cambona Nem a fumaça revolta dos galpões!
- Tenho também... Páginas e páginas de história Que meus avós escreveram e me legaram E algumas pontas de lança que ficaram Entranhadas no ventre do passado Que, embora sejam bens já sem valor, É o muito do que tenho a dar amor E o pouco do que tenho me orgulhado!
- Ainda tenho... Mas isso eu vou deixar como herança Que é uma pontinha leve de esperança De, um dia, juntar todos esses tarecos Na mala de garupa da saudade E me mandar, “sem lenço e documento”, Desse pampa desumano de cimento Pras minhas raízes de campo e liberdade!
Ainda a pouco, Nas ruas da cidade, Um índio velho oferecia, em altos brados, Um Rio Grande Que a ninguém interessava!