Conversa
No mate da cuia grande, Cevado sempre a capricho, Eu bebo dedos de prosa Pelos balcões dos bolichos. Escuto causos e versos Que o meu pai rabiscava Nas tardes dos aguaceiros Que sempre nos encharcava.
Foste tu, meu velho pai, Que escreveste poesia Com palavras que eu negava E muitas vezes nem lia. Foste tu, meu velho pai, Que construíste paredes Para guardar os teus sonhos Nos campos da minha sede.
Nos sonhos, te vejo às voltas Tentando voltar pra casa Feito pássaro caído Batendo em vão suas asas. Lembro teu corpo, no leito, Cansado dessa jornada E sinto o fio de uma vida Romper-se na madrugada.
As nuvens brancas se alojam Junto às janelas do olhar, São cortinas que impedem Meus olhos, de te enxergar. Hoje, busco nas lembranças o que de mim eu roubei, Eu fui dono da verdade Que sequer acreditei.
Hoje, eu entendo de versos E escrevo com tua rima Porque abri os meus olhos Cansados de olhar "de cima". Meu velho, eu perdi a pressa. Quero te ouvir, não consigo... Quero roubar-te um minuto... Vem aqui... fala comigo...
Visto a seda que me abraça No rigor do frio intenso, Que toca os rastros da alma Na brancura do teu lenço. Somente os campos no livro Da história, meu velho pai, Vão entender da saudade, Que fica, de quem se vai.
Enquanto neguei teus passos, Não pude pedir bênção. Nesta conversa, meu velho, Eu só te peço perdão! Por muito, neguei teus passos. Nas andanças, não te vi. Meu velho pai, te procuro Sabendo que te perdi.