Da Sina dessas Mulheres
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Quem vê este rosto de olhar distante, com marcas de um tempo antigo, talvez não possa entender que uma vida só de entregas, guarde lembranças felizes se sonhos não pôde ter...
Quem vê este rosto antigo só vê as rugas da idade... Só percebe em cada olhar, recuerdos de uma vida sem cor, somente batendo roupa, servindo pratos, parindo filhos e sangrando em dor...
Enganam-se todos os que pensam assim... Ela é o registro, o retrato de muitas outras mulheres que ao nascerem meninas, herdavam a sina da falsa fragilidade... Ser mulher as condicionava a tudo que fosse fraco, frágil ou delicado...
Aprendiam a coser, lavar roupas, servir pratos e trazer filhos ao mundo... Criar, educar e rezar o terço...
Essas mulheres já sonhavam com uma vida diferente, embora soubessem que o seu destino seria somente aprender a coser,casar e procriar...
Quantas lágrimas contidas, pois, não podiam chorar! Não tinham tempo pra chorar... Essas mulheres de ontem não lamentavam a sina...
Sabiam muito bem como criar seus filhos. Filhos homens que entregavam pras guerras... Alguns voltavam diferentes, outros, sequer voltavam...
Sabiam muito bem como criar suas filhas. Filhas mulheres que entregavam pros homens... Algumas casavam... Pariam seus filhos... Batiam roupa somente... Outras casavam... Pariam seus filhos... Batiam roupa e ainda sonhavam...
Eram mulheres de homens fortes e tinham orgulho dos maridos, e tinham orgulho dos filhos homens, que voltavam das guerras, heróis!
Mas tinham muito mais orgulho daqueles que nunca voltavam e, apesar da dor, as tornavam mais fortes!
Das filhas... Tinham sempre a certeza de que um dia seriam mulheres respeitadas. Seriam aquelas mães de famílias grandes... Que pariam filhos que levavam o nome do pai por diante... Mulheres que nunca faltavam, que não descansavam enquanto não viam os filhos criados... E depois que o mundo se encarregava de os levar pra longe, ainda continuavam orando por eles e ainda sem tempo pra chorar...
Das filhas, o consolo de estarem seguras nas casas... As casas eram a fortaleza! Não tinham a beleza de castelos de conto de fadas... Viviam a realidade dos dias que passavam, que se iam pra depois dos galpões... Que se perdiam nas longas distâncias, nas tempestades, nas invernias, nas tantas estações que marcavam os anos nos calendários das paredes descascadas...
As mulheres eram a certeza da companhia... Mate cevado, panela no mesmo fogão à lenha, catre cheirando a maçanilha... E antes do descanso do corpo das lidas, o regalo pro corpo depois da lida...
Os corpos dessas mulheres, então, ficavam mais pesados... Absorviam o peso dos homens... E estes, mais leves, eram mais felizes... Elas eram o porto que transformava homens duros dos campos, em homens que se rendiam às domas do coração...
Eram felizes sim...
Quem vê este rosto antigo com tantas marcas de tempo, não compreende porque olhos de olhar distante, não choram sonhos perdidos... Não têm o sabor das lágrimas, pois lágrimas e sonhos, se teve algum, transformo-os todos em sapiência de mulher, que nasce pra sustentar! E, por isso, não sobrou-lhe tempo pra chorar!
Poema premiado em 1º Lugar na IV Tertúlia Maçônica da Poesia Crioula de Porto Alegre/RS – Agosto/2012.