O VINHO TINTO DA DOR
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A dor que escondo do mundo não se esconde de mim... Amanhece nas janelas e invade a casa em que habito pintando um quadro bonito pra quem assiste de fora...
Vós só enxergais poesia nas palavras que eu escrevo... Não traduzis a linguagem que os versos mostram com medo, por saírem de meus dedos que me rotulam “poeta”... Ganham asas e conquistam aqueles que vivem loucos na paixão que os movimenta...
Se sou poeta, ou louco, vou misturando meus dias nas areias da ilusão... Com brisa afogo a saudade, com vento mato a agonia. Na sede bebo do vinho que desliza em ritual manchando alvas camisas, feito um punhal que desliza rasgando o peito, mortal.
Bebi da seiva da vida que amargou e transformou a doçura em grande seca. A tempestade dos ventos levou pra longe a esperança de uma rima diferente. As palavras de quem ama consolaram-se co'a dor secando as folhas de outono.
A saudade fez costado pro gosto amargo da espera. Vai-te embora! Deixe-me só! Quero o vazio, o silêncio... Quero somente o perfume de um vinho seco, encorpado... Não vou beber da malícia da fria taça de vidro!
Toalha de linho branco, vaso de flor sobre a mesa, dois copos pra não beber.
As tantas noites de estrelas não tinham olhos fitando. As luas se transformando perderam o brilho de amantes. O cobertor de sereno deitou sozinho nos campos e chorou os mesmos prantos que eu derramei nas ausências. Ninguém secou esses rios... Nada mudava de curso pra ver a dor, que sangrava!
A madrugada, parceira, emprestou-me a calmaria pra que eu deitasse calado... Não apaguei meus luzeiros nem permiti que o cansaço vencesse o peso da espera e continuei em vigília enquanto a noite reinava...
As horas passando longe... Os pirilampos bailando despediam-se me olhando nessa milonga sem par. Partiam sem entender o bailado de uma noite que parecia perfeita. Sem coragem, não contei...
A ronda chegara ao fim e nada iria mudar. Sequei meus olhos por fora, mandei a tristeza embora como selando um final.
A mesa ainda estava posta mas o vinho era pra um. Fitei o copo de vidro... A cor qual sangue frio escorreu-me como um rio e levou a dor consigo.
Ninguém dividiu comigo: O vazio de uma partida; O Mal-me-quer de um amor; O silêncio de um adeus; O brinde de uma só taça; O vinho tinto da dor.
Hoje curei-me do vício de chorar a dor por fora. Hoje eu escrevo essa dor! Hoje eu escrevo esse amor! Hoje eu entrego pros ventos!
A dor que escondo do mundo não se esconde de mim. Amanhece nas janelas e invade a casa em que habito pintando um quadro bonito pra quem assiste de fora.
Se vós achais que é belo, Se vós podeis traduzir,
Que sofrais vós! Que chorais vós! Que soluçais vós, que não entendeis do que só eu entendo. Pois então que se embriaguem lendo os versos que eu escrevo, nas madrugadas compridas, tendo a rima por parceira me velando a noite inteira enquanto afogo essa dor, que me machuca por dentro!
2ª Melhor Poesia – 12º Bivaque da Poesia Gaúcha de Campo Bom – Fevereiro/2014