Alma em Verso
Poesia

Espinela a um Cortejo (Memorial a Tropa na Estrada) – Kayke Mello

Kayke Mello

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Toda a estrada poeirenta, Cria um rascunho de imagens De se apagar com as aragens E se amansar pós tormenta. Dia a dia se reinventa Pra contar outras histórias, Cicatrizes de memórias Que a culatra faz vigia, E desvenda uma elegia Nas partituras simplórias.

Cada retrato gravado Nas escrituras da linha Regido pela madrinha Na conjura de ajoujado, É o destino, apicanado, Pela lei de ir sempre em frente. Pela baba transparente Gotejam as réstias de vida Que a própria sina - envida, O matiz de um sol poente.

Vai a tropa, marcha lenta, E o sol a pino desenha As sombras de uma triguenha Que a vasta silhueta inventa. Não refresca, mas alenta O fiador de um perrito Que vai por achar bonito O sincopado do passo, Sem se importar com o mormaço Só pelo aboio do grito.

Êra, êra, êra boi! Ressoa no corredor. E um ventito assoviador Contraponteia quem foi... Êra, êra, êra boi! E segue a tropa por diante Que até o olhar do andante Tranqueira vendo o destino. E o cortejo, segue o sino, Na inocência de errante.

(Estranha sina a boieira Que vela o próprio cortejo). Cada mugido é um marejo No rumo de dar-se inteira, Ser tirador, barrigueira, Graxa pingando na brasa, Ser o sustento que embasa Do ponteiro ao culatreiro, Mata hambre do “primeiro” É o alimento pra casa.

Segue a tropa pela estrada Na busca d’um parador Pra fazer o bebedor Na sombra de uma ramada, Que tenha uma buena aguada, E mate a sede tamanha, Que acolherada acompanha E “inda” falta légua e frente Que até o tumbeiro já sente A saudade da campanha.

Quebram-se os espelhos d’água Para quem mira de fronte, Bebendo seiva da fonte Irracionais e sem mágoa. Junto a vertente desagua Uma florzita atrevida, Que na “mejilla”, prendida, Vai com a tropa qual visagem Como quem deixa a mensagem Que mesmo na morte há vida.

Vai a tropa, passo lento Costeada a grito de venha, Vão escrevendo a resenha Em sentido ao firmamento. Cada aboio é um argumento Pra quem tem um rumo incerto, Que a cada tranco é mais perto Do derradeiro ritual, Neste cortejo final Com feições de um campo aberto.

*Tumbeiro: gaudério, changueador. *Mejilla: Bochecha do gado.