Alma em Verso
Poesia

Amanhecer na Estância

Lauro Antônio Corrêa Simões

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A quietude da madrugada, Ainda dona das extenções camperas Segue ao tranco, golpeada vês por outra Pelo arreador estridente de um quero-quero. A tropa osca da noite grande Campeia a porteira, num derradeiro reponte: Último quarto-de-ronda do olho arregalado da Boieira... No trilho imaginário da cancha dos luzeiros, Vem e vem, tocadita pela fusta do horizonte A barra do dia, relogiada pelo olhar do peão campeiro.

Há muito, no galpão de tábuas, Um rádio charla entre milongas, polcas e vaneiras No lançamento recente de algum disco De um festival de serra ou da fronteira. O fogo de chão, pita seu pito com longas tragadas Engolindo os cernes das toras de aroeira.

É madrugada! Os nutridos tarros no tosco baldrame, num moirão do brete, Saciam a sede pelas mãos calosas do peão caseiro. O leite morno p’ra o café engrossado dessa peonada Chega despacito os passos do piá-mandalete.

Berram os guaxos- de vazio no fundo- Quando o guri chega no portal das casas, Com os grandes baldes de barrigas cheias... Guaxerio dengoso- galopeando á volta do piá sapeca. Cirandeando bobos a chupar-lhe os dedos.

A peonada grita, quando um baixa o toso E atropela a porta, esquecendo oo medo Da vassoura em riste para o mais cargoso.

Na cosinha da casa grande, sobre o fogão de lenha Um chaleirão de ferro cheio de água pura para um mate amargo Os jujitos dançam ao calor da chapa, quase incandescente Um rádio proseia e, suas cantilenas vão a trote largo Vazando nas trinchas, bombear o nascente...

Ainda é madrugada... De quando em quando, um riso alegre Escapa das estacas do silêncio E corta campo, matrereando nas quebradas! Um causo picaresco frouxa a cincha E imita um bagual, quando relincha, No timbre gauchesco das risadas!

Um galo abre o peito, na tronqueira da cancela Despertador campeiro- entre a casa e o galpão! Meio rouco no princípio, compõe a goela Para o refrão matinal das quatro e pouco! De bucal na mão, o recolhedor alcança a cuia E ruma p’ra o pequete, bem mandado! “Ai” que buscar-se dos gateados a tropilha... Enquanto isso, os cavaletes descansam “aperados”, Com os arreios invertidos, para a encilha!

De repente, o tirrim espinhento das esporas Alvoroça o galpão, em talareios! Os tiradores se acolheram às cinturas P’ras cotidianas fainas dos rodeios! Antes, “ai” que galopear-se um potro zaino De estrela da testa e linda estampa... Boleado que foi por bola-pampa, Numa pachola gauchada sobre um plaino.

Nos cinamomos guarda-sóis do parapeito; Nas larangeiras do pomar, os passarinhos Alteiam os seus cantos em coral A despertarem os irmãos, ainda dos ninhos. Em festa o alvorecer já se anyncia... Um garanhão relincha à estrebaria Clamando o desjejum ao peão caseiro. As tambeiras saem ao passo, com os terneiros E, molhado de sereno, chega o dia.

A lo larlo, um ventito parelheiro se arremanga E, leva um “osso cabeludo” d’um paisano: Lá maula, tão logo hoje p’ra pegar os araganos; Bagualada que a muito andava gaviona... E o vento assobiado por pirraça... Se não voa o xergão, voa a carona, Ou juntas se vão em redoblona E, os malalistas corcoveiam, só por graça.

A cachorrada em volta é um alarido. A peonada ri, parada à porta. São cavalos “sentando”, nos palanques! É o guri negaciando uma ´gua torta E, o paisano mais brabo que um vespeiro, Quando um gateado-cabos-negros, flor de arisco Lhe toma o cabresto e, qual corisco Sai “vendendo as garras”, no potreiro...

Mas- Bueno. O sol, pintor crioulo de aquarelas, Já quase aponta o face em rubra ânsia, Como quem espia pelo vão de uma janela! Aos poucos o silêncio volta e acampa. A peonada em recorrida, na distância, Repontam pela manhã clara do pampa As vozes mais terrunhas das estâncias.