O AMANHECER
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A luz brotou, qual um clarão de vida No alvorecer do pampa verdejante. Tingiu com seus raios de luz Essa quilate que o ouro não emparda... E foi bebendo na boca das vertentes, Essa quietude de águas cristalinas. Cachos de mel, semeados nas campinas Que apearam num rancho, lentamente.
Sobre a tronqueira mais alta da cancela, O galo altivo ponteou seu clarim, Esparramando entono e patacoadas Na imensidão vivente das canhadas. Luz e canto...o pago revivera E ressurgira na prosa das esporas, Palmeadas cuias, em descanso agora Nos pedestais sombrios de uma lareira.
Banco do alcatre, montado com capricho Perto ao tição, coberto pelas cinzas. Aconchegante lugar onde uma prenda Acostumou peões com sua presença. Sorriso largo...expressão contente, Junto ao clarão do sol, que pelas frinchas Vinha beijar-lhe terno sobre a vinha Benção diária do onipotente!
Lá fora, o alvoroço dos “aperos” O arrastar pra perto cavaletes. O relinchar de fletes, nos palanques E o ruflar de pala e tiradores. Luz e canto... o mundo todo cia O campo ressurgir, noutra volteada. Cantarolar poético de aguadas E pelas quinchas, o vento em melodia.
A moça, quieta, seguia num sorriso, Sincero, puro, igual ao da criança. Parecia bombear um sonho lindo Que realidade ao largo se transforma. - o seu sentir de vida não se entrega! É radiante, tão sereno, tão contente Que dei-me conta, surpreso, derepente Que ela era cega, meu Deus... ela era cega!
Do tateio das mãos, fizera os olhos. Dos ouvidos, da voz, o seu viver E essa pureza que só os grandes têm A fizera maior que muita gente!... - espelho pra tantos no amanhã! A luz de sua paz e seu sorriso Vem surgir-nos na terra, o paraíso Porque ela é gente igual a nós... É nossa irmã!
Esperança, carinho, amor e vida. O aroma das flores no jardim. A voz de uma cordeona, traduzindo Seu grito de alegria, nos acordes. Um pinho manso soluça um bem-querer Fugindo da janela, recostada E eu vejo, em sua face deslumbrada Olhos de alma, bombeando O amanhecer!