Alma em Verso
Poesia

O Tropeiro e a Tapera

Lauro Antônio Corrêa Simões

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Quando o andante parou - na volta do corredor - pra apertar os arreios, sentiu que o vento trazia, Apresilhado na cincha o cheiro forte da chuva que a trote se avizinhava... Quando o tropeiro estendeu seu olhar prescrutador, observando à distância, percebeu que dessas bandas as armações nunca falham pois a vida lhe ensinara com rara sabedoria. Quando o gaúcho montou, já desatando dos tentos o velho poncho surrado, olhou que a água a galope vinha embaciando a paisagem em tropéis de ventania...

Mas, a trote prosseguiu como se pouco lhe dava enfrentar uma tormenta no ermo do corredor. De muitas sentira o gosto, até sem poncho de abrigo nas gauderiadas da vida. Ereto sobre os arreios, somente abaixou a aba do Cury já desbotado e seguiu calmo e confiante, envolvido em pensamentos talvez limpos, como a chuva ou negros, como seu poncho. Assim, avistou o rancho entre as brumas do aguaceiro, qual uma mancha perdida na imensidão do relento.

Sou tropeiro de uma tropa de desafio e esperança porque mágoa nas andanças a gente sente algum dia. Quem anda nessas jornadas sempre encontra algum maleva prontito pra bater cascos na cancha da sesmaria.

Tropa e eu somos um só entre a poeira e poente. tormenta ou mormaço forte. Pois é a tropa que levo mais adiante que o cavalo: - por dentro do coração! Quem a leva não é mula. Talvez seja outro tropeiro também querendo ser gente.

No entanto, até o xiru que ficou junto ao fogão, carrega a intuição que a tropa não deita nunca. Não tem ronda e nem mangueira que lhe sujeite a vontade de percorrer o rincão. O que sujeita essa sina é a alma e o desejo que tropeiro, velho andejo abriga para levá-la. Não tem charqueada lá adiante. Não tem curral, nem martelo. Nem picana e nem cutelo, nem bondade, nem maldade mas, sim tem, para verdade o sentimento do andante.

Estampada no seu rosto uma ponta de tristeza, ao endereçar o pingo que guapeava indiferente a chuva forte, bravia. O rancho era tapera, sem se notar a presença de qualquer coisa vivente que recebesse o andejo. Apeiou-se, lentamente, Sem importar-se que a chuva Fosse molhando os pelegos. Assim, ficou um instante, perdido numa lembrança que chegara sem aviso. Porém, na face do índio correu rebelde uma lágrima se misturando com a chuva no negro poncho do andante.

Tão quieto como chegara, Virou o seu pelegão e montou num derepente. Sem jamais olhar pra trás, seguiu o rumo da estrada no trotezito que vinha. No céu, travou-se uma rinha entre os clarões da bonança e uma garoa insistente. Mas, por fim, raios de sol clarearam todo o horizonte, iluminando o cenário dessa muda despedida. Assim, se perdeu de vista a tropa e o rancho tôsco, abandonado e sem vida. Somente algum quero-quero ficou pra contar a história da tapera e do tropeiro, qual dos dois mais solitário.