Alma em Verso
Poesia

Linha Mariano Pinto – Maximiliano Alves de Morais

Maximiliano Alves de Moraes

16º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em

Sou do tempo em que ir ao povo Se levava dois, três dias. Quem ia aqui do Angico, Sesteava no Velho Nico E pousava na tia Maria.

Os homens iam a cavalo E as mulheres em tilbre aberto. O banhado das corticeiras Foi o sustento do Altivo Tirando gente do barro Porque o peludo era certo!

Mas esse tempo passou, Vieram estradas, pontes E conduções a motor. Melhorou pra todo mundo, Menos pro gringo Altivo! Foi nessa época Que aposentaram tilbres e aranhas E surgiu cá na campanha O expresso coletivo!

Pra nós aqui do Angico A melhor coisa do mundo, Que dirá pros lá do fundo Do Rincão Mariano Pinto! A linha Mariano Pinto

Não só encurtou distâncias, Mas trouxe algo de novo, Mesclou a vida da estância Com a nova vida do povo.

E o cara chata botava As suas patas redondas No lombo firme da estrada. No bagageiro, bagagens, Nos assentos, passageiros. Os que embarcavam primeiro, Que o resto ia em pé Povoando o corredor.

Aquilo era uma quermesse, Um que falava de domas, Outro da febre aftosa Que anda rondando o rincão. As comadres bem pintadas, Afinal povo é passeio, Proseavam em fofoqueio Como se fosse um salão.

E um borracho que embarcara Numa aguita das raras No bolicho do Nedi, Vinha mal e incomodando, Caindo e se levantando Até o Jacaraí. E nessa, perde a parada Pra botar o pé na estrada De volta ao Capivarí.

O cobrador bonachão, Que era um amigo de todos, Não exigia bilhete De algum que era mais “ermão”, Pois tinha feira sortida E a boia era garantida: Milho verde, melancia, Bolo de nata e feijão!

Um reclama do governo, Outro da falta de chuva E um cheiro de gamerial, Porque era braba a saúva!

Apesar de proibido, O bagaceira Tinico Destampa uma canha pura. Ninguém reclama do ato, Pois o valente mulato Leva um trinta na cintura. E o motorista vaqueano la destorcendo guidão, Pé na tábua, pé no freio E um horizonte fronteiro Pra cenário da visão!

É o coletivo rural O encontro natural Dos que vivem na campanha. Nele se conta lorotas, Nele se conta derrotas, Nele se conta façanhas!

Vi estourar um bochincho Quando a polícia da estrada Achou no compartimento Quinze quilos de capincho. E agora, a carne é de quem? O proprietário da caça Não se acusara pros praças E não prenderam ninguém.

E assim transcorre a vida No interior do coletivo Em convívio genuíno. Parece uma grande festa, Parece ninguém ter pressa De chegar ao seu destino.

Na linha Mariano Pinto Foram atadas carreiras E negócios de importância. E as chinocas mais faceiras, Como num baile de rancho, Flertavam com peões de estância. E desses flertes campeiros Muitos viraram namoro, Muitos ataram em noivado, Muitos findaram em casório. Que o diga o compadre Honório Que se casou com a Do Carmo!

Chegando ao Mariano Pinto Tinham pouso garantido Motorista e cobrador, Afinal a linha é longa E o cara chata precisa Dar um alce pro motor!

Nem bem o sol despontava E o coletivo rural Rumo à cidade partia. Se ia ligeiro ao povo, Sem sestear no velho Nico, Sem pousar na tia Maria!

Já na primeira parada Três potes de goiabada E um tambo de leite momo. - Deixa pra mim lá no povo! Gritava da porta um taura. - Vai tá esperando a Rosaura Lá no cabeça de ovo!

E os índios que embarcavam Na estância da Guajuvira Vinham de barba aparada Pra se apear meia quadra Da tasca da tia Elvira.

Um coletivo rural É a vida como eia é, Uns com sonhos discretos Sentados em bancos retos, Querendo o que Deus quiser. Outros com sonho matreiro De ser um grande estancieiro, Mesmo viajando de pé!

E as rodas levantavam poeira, Perfumadas fofoqueiras Davam o tom do murmúrio, Nem o calor do motor Acalentava as friagens Daquelas geadas de julho!

E ele entrava na cidade Trazendo gente do campo, Dinheiro de ganho honesto E sonhos de vida buena. Vinha trazendo pavenas Que independente da idade Tinham as ganas rurais Da tal de felicidade.

Por isso que quando vejo Um oito patas rodando, Levando e trazendo gente Do campo pro pago urbano, Relembro os tempos do pingo, Dos tilbres e das aranhas, Riscando nossa campanha, Rumbiando rumo à cidade.

Pois esse tempo passou, Só o coletivo que não, Ele segue todo dia No lombo da carreteira Do Alegrete ao Rincão! E é verdade, O coletivo rural Resume a vida do campo!

E é saudade, Quando não pago bilhete Ao cobrador bonachão!

É a mais pura realidade, Que na linha Mariano Pinto, Lhes falo com pura emoção! Por destino ou precisão,

Pra falar bem a verdade, Embarquei meu coração!

Crédito da fonte: Maximiliano Alves de Morais