Vaqueano
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Sou um vaqueano sem rumo Pra quem a estrada não conta...
De tanto cruzar atalhos No lombo dos horizontes, De tanto cruzar os montes Canhadas e coxilhões, Fui descobrindo as aguadas Das invernadas perdidas E também o cruzador Das sangas fundas - no inverno - Lugar que a gente bandeia Na esperança de que a sorte More no lado de lá...
Fui conhecendo os caminhos Pra viajar noite sem lua...
Aprendi entre outras coisas Que quando se avista ao longe As cinzas de um fogo morto, Sempre tem aguada perto Justificando a pousada.
Mas com toda essa experiência Chego ao final da existência Bem mais descrente e mais só.
Sou um vaqueano sem rumo Pra quem a estrada não conta.
No campo do amor, caramba! Fui um vaqueano solito. Como a astúcia é do meu tombo E a malícia me fascina, Sempre um sorriso de china Me encontrou morando perto.
Chegava assim despacito Como quem entra em arroio Com medo do pedregal...
Porque sempre acreditei Que no silêncio do homem De fala mansa e pausada, Há um ar negro de mistério Que faz a china cismar...
O catre é uma conseqüência Na doma do bem-querer...
Depois madrugada, aurora Alguém que se vai embora Até a volta! E nunca mais.
Sou um vaqueano sem rumo Pra quem a estrada não conta...
Lendo a tabuada da vida Que sempre dá resultado Pra quem soma mais defeitos, Aprendi que o homem vale Pelo que diz de si mesmo, E quando paga a despesa Até aplaudido é...
Vez por outra, num bolicho Me reencontro no balcão E fico ouvindo os borrachos; Quase sempre são sinceros No que dizem sem pensar...
Na irreverência da canha Quem toma um trago, garanto, Se engarupa na verdade...
E fico bombeando a porta À espera que de repente Surja lá um guasca sem nome, Desses que são caborteiros Com uma guitarra na mão. Aí eu encontro irmão Rengueando da mesma pata.
Só existe espontaneidade Naquilo que brota d’alma...
Sou um vaqueano sem rumo Pra quem a estrada não conta...
Hoje quando ao pé do fogo Tomo um mate solitário, Vou desfiando num rosário Todas coisas que aprendi.
Nesta evocação serena Sinto o meu violão vibrando Tendo um canto diferente: É o canto cor de saudade Que juntei pelos atalhos Por onde um dia cruzei, Com corpeadas e negaças Que usei nas minhas trapaças Com as mulheres que amei.
Mas com toda essa experiência Chego ao final da existência Bem mais descrente e mais só.
Vaqueano em tantos caminhos Proscrito em tantos amores, Só uma vez me perdi: Sabe Deus onde andará... Talvez tenha me esquecido, Eu dela nunca esqueci.