Alma em Verso
Poesia

Mal Falada

Silvio Aymone Genro

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Chica Bacuda é a chinoca Mais amada e odiada E também a mais mal-falada Entre as mulheres da vila! (A língua do povo é ágil...) E ela vende o corpo frágil Em troca de poucos pilas. Nos cabelos, flor do mato, Na pele, cheiro de estrato, Na boca o batom barato, Que um mascate lhe vendeu... - E pra o verso que eu preciso - A ausência de um sorriso Que há muito ela já esqueceu. Chica Bacuda é a chinoca Que os pias e moços desejam E os coronéis esbravejam Pra que lhe descalce as botas! - Mas quem se importa com ela? Seu rancho não tem tramelas... Seu coração não tem portas... No rastro da mal-falada Mesclam-se botas lustradas E alpargatas empoeiradas, Testemunhando a má fama... - Mas quem saberá o que sente O coração de quem mente, Amando quem não lhe ama? Chica Bacuda é a chinoca Que entrega seu corpo em troca, Pra ter seus sonhos de volta Na ilusão de ser feliz... Pra que nunca mais precise Carregar as cicatrizes De uma vida que não quis. A noite no catre impuro Um par de olhos escuros Brilham quais astros maduros Em suas órbitas errantes, Buscando desesperados, Ver igual céu estrelado No olhar vazio dos amantes! Chica Bacuda é a chinoca Que afronta e que provoca Na alma de quem lhe toca A dança mansa dos dedos... Mas e dos seus sentimentos, Quem há de enxergar por dentro Seus desejos e segredos? Quem lhe condena não sabe A dor imensa que cabe E as feridas que ela abre Nas almas mais insensíveis! E que a hipocrisia silenciou nela a poesia Com seus punhais invisíveis... Chica Bacuda é a chinoca Que de direito e de fato, É mais um triste retrato No álbum dos desencantos... Mal falada e preterida, Pra poder ganhar a vida Teve que perder-se tanto!