Romance do Laçador
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Ora veja... Num repente Como capricha o destino. Deram nuns brejos de mato Onde a boiada amoitava Nas horas bradas de sol.
Houve um berro e um estalo Na ânsia do pega pega...
Joca Ruivo viu - num alce Quando se abriu a macega Formando um quadro medonho Onde o bizarro campeiro Parecia miniatura Diante da pavorosa estatura De um touro brabo escarvando!
E o ruivo – calmo – sem medo De laço pronto – um brinquedo Aquilo lê parecia Ajeitando a montaria Para melhor posição!
Quem diria – aquela calma Em tão feia situação!
Arranca o touro – la fresca O laço voou num prisco. E a argola tirou corisco Nas aspas do boi pastoril !
E ai que foi um pavor!
O bicho voltou num upa Tracando os chifres de ponta Nos encontros do cavalo.
Houve um relincho – e um pialo E o Ruivo se foi ao chão! Touro e campeiro se olharam Por um momento apenas!
Bufou a fera... e se veio E o Ruivo – subiu no ar!
A prata das nazarenas, Brilharam de encontro ao sol!
Naquele quadro de morte Nem um grito – nem um ai. Quando um gaúcho se vai, O pampa inteiro estremece!
De bruços na campa enorme Por certo morreu feliz. Pois era o sonho do Joca - Um dia... ser LAÇADOR.
Nascera assim - como nasceram Centenas de desgarrados. Filho de quem? – era um guaxo! Mas isso pouco importava. Total – a vida era aquela Andar de estância em estância A roupa escassa – e a bóia, Por conta de alguma changa. Serviço é o que não faltava!
Era um piá. Mas tinha um sonho Como todos os humanos Suspirava fazendo planos Nesta arte de viver.
Tinha um nome – Joca – o Ruivo - Quem lhe dera? Por certo fora a Valéria A “sinhá preta Valéria” Em cuja teta mamou!
Por vezes lembranças tinha Do morno daquele leite Florando um branco bonito, Da teta da “Mãe Valéria”.
Já andava falado – o Joca Mas sempre co‘ aquele sonho, Uma mania esquisita. Quem sabe – coisa de herança!
Nos intervalos que tinha Por estâncias onde andava, O Joca Ruivo passava Laçando palanque a esmo, Com aquela corda de crina Que em largas noites trançara.
E o sonho do Joca – era Um dia pialar de cima De algum redomão nervoso, Unindo doma e destreza!
Que coisa braba pobreza! E o flete? – como teria? Os aperos... tudo o mais?
E o Ruivo fazia planos No mar pairado do campo A sombra dos pajonais!
De quando em vez – a cordinha Bailava a armada bem feita Pra se fechar retinindo Na cabeça dum moirão!
Mas um dia... e era corrido Aqui na estância da várzea Reuniu-se pra marcação .
Chegava de todo lado, Tropeiro - maula e andejo Cada qual com mil façanhas Como um rosário de glórias Em cada volta de tentos!
“Coragem – raça – talento”
Tropita alçada – isso havia! Criada em fundões de campo, Em brejos nunca batidos!
E o Joca – ficava olhando!
Que coisa linda era aquilo! Bons aperos, bom lombilho E depois... o bate-bate Dos cascos se misturando... A armada em seco – aparando Aspa nova de novilho!
Foi então... sorte? – Qual nada! Logo depois da sesteada Puxando um baio encerado, Gritou pro ruivo um chiru:
Ô guri – pegue meu baio Só cuidado – este lacaio Já muito tombo me deu.
(Vinha rengueando o vivente, pois se rendera num pialo).
-Os Olhos do Joça Ruivo Quase beirando a loucura, Se dilataram na cara Fazendo dois patacões!
E o peito lhe parecia Numa louca disparada, Tropa sem rumo - assustada, No brete do coração!
O Joca tinha bandiado Pro outro lado da emoção!
Chegou-se devagarito Naquele jeito esquisito De meio piá – meio homem.
Houve um grito da pionada: - Monta guri – já são horas!
- E o rengo disse pro Ruivo, Espera... leve as esporas.
O pé do Joca brilhou Na prata das nazarenas!