Alma em Verso
Poesia

Das Solidões de um proscrito

Mateus Neves da Fontoura

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Com a mesma estrada nos olhos Encerro o dia ao meu jeito... Enquanto o sol, por direito, Se vai apagando as brasas, Mateio em frente das casas Curando as penas do peito...

- “Só de lembranças sou feito!” As vezes penso... penso e me escuto, Meio que puxando um assunto Comigo mesmo converso... E é com pesar que confesso Que me esqueceram no mundo.

Me sinto como os poentes No fundo das sesmarias: Desquinando nostalgias, Perdido no firmamento, Cumprindo a sina dos tempos, Sangrando ao findar dos dias!

Ninguém me chega da estrada... De quando muito um aceno Alguém que vai se perdendo Cruzando... só de cruzada... E a noite grande estrelada Pra repartir meus segredos.

Fico chuleando quem passa - “Vá que resolva chegar” - Pra que eu lhe possa chamar “- Boleie a perna, sejas bem vindo!” E no mas: “afrouxe o pingo, Que vem cansado de andar...”

Qualquer conversa me agradaria... O campo, o tempo, a chuva que negou de novo, Uma prosa mansa pra saber do povo, Um chasque, enfim... uma notícia buena! Quem sabe até uma intenção morena De alguma prenda a me roubar o sono?!

Mas não, ninguém me chega da estrada... Que vai sumindo horizonte a fora Como por gosto, a me pesar as horas De esperança amarga e de longa espera A me matar aos poucos, a me fazer tapera. ... caminho aberto de levar embora...

- “Como faz falta um abraço Pra quem há tanto não tem!” Não se troca por vintém A prosa de mano a mano Poder chamar de ‘hermano’ O amigo que se quer bem.

Já não recordo... faz muito Qual a última visita Que me chegou imprevista De alma larga e serena... Por isso todas as penas! Por isso tantas desditas!

Talvez seja culpa minha Ou do meu isolamento... Talvez seja um sentimento Que vem rondar meus enleios A repontar mil anseios Por conta dos meus tormentos.

Só me restaram lembranças, Remansos do rio do tempo, Que revivo em meus lamentos Ao encilhar as saudades Enfrenando as soledades Com medo do esquecimento.

Tem sido assim, dia após outro, O mate pronto, a vista comprida E a esperança reprimida Nas solidões de um proscrito: Que desencilha solito O flete manso da vida!