Alma em Verso
Poesia

Onde Repousarão os Meus Versos?

Mateus Neves da Fontoura

Publicado em

Foi-se o tempo em que as gavetas Solitas guardavam o corpo De um poema natimorto Que sucumbiu … incompleto, Sem respirar o dialeto Das melodias sonoras… em nunca ver as auroras Dos horizontes libertos...

Foi-se o tempo do romance Da fita preta e vermelha, Da escrita desparelha Por mecânicos botões… Foi-se o tempo dos brasões, De assinaturas em cera, Das cartas que, a sua maneira, Traziam as informações…

Foi-se o tempo em que o papel Servia de cama ao verso, De alvo lençol confesso Às entrelinhas secretas… Onde a palavra era seta, Tinta e pena … nem se fala: Eram na alma uma bala Do coração do poeta!

Chegou o tempo de hoje Que ao de ontem… deu as costas Por imediatas respostas… … Que o tempo… segue cruzando… E o tique-taque, sangrando, Corpo, alma e solidão: Já não basta à inspiração… E aos poucos vai nos matando! Chegou o tempo de hoje … E já se foi: atrasado... Que o amanhã é passado Com pressa e nenhum mistério… E o tempo se para sério Pois nunca volta em remanso Que os dias são rios de avanço Correndo pra um cemitério!

Chegou o tempo de hoje Num digitado que encerra O silêncio que não se quebra Com o verso mais melodioso... Que vai calado e baldoso Na cancha vítrea do espelho Pra se arrumar, desparelho, Num corretor preguiçoso

Meu verso não tem descanso Campeando algum parador... Tranqueia no corredor, Rolando no vau das telas, Sem apeiar nas cancelas Ou nas sombreadas da estrada... Segue buscando cruzadas No abrir de outras janelas...

Meu verso não tem descanso Porque do campo ele veio E da poeira do arreio Que juntou levando tropa Batizou a aba e a copa Do Maidana que carrego E qual ele eu não me entrego Se a intempérie me topa!

Meu verso não tem descanso É sentinela do tempo Com ele o meu sentimento Deixo no rastro estendido E se o papel foi perdido Pra repousar suas asas Há de ficar pelas casas Ou então … ou então … morre comigo!