Matungo Guipeca e cherenga
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Matungo, guaipeca e xerenga são as relíquias do pobre, do índio que, sem ter cobre, se arranja conforme pode. Além do fio de bigode só lhe resta a valentia que é de muita serventia já que a sorte não lhe acode.
O matungo ruim de trote é o cavalo do vivente, duro de boca, ruim de dente, sem raça, nome, nem nada, mas conhece bem a estrada porque a vida do cristão se mistura ao pó do chão nas muitas tropas changeadas.
Matungo, cavalo velho, manco, sarnento, estropiado, pançudo e feio de estado no entanto, gateador porque aprendeu no rigor os devolteios da lida gastando os ferros da vida pra morrer num corredor.
Guaipeca, amigo e campeiro que come a bóia que sobra, no serviço se desdobra como se fosse um peão; de pêlo curto, rabão e sem raça definida, porém vaqueano da lida de garronear no capão.
Guaipeca, nome diz tudo, cusco retaco e pitoco que se contenta com pouco na escassez insistente. Guardião leal e valente que sempre salta primeiro latindo pelo terreiro pra avisar que vem gente.
Xerenga, faquita à toa, sem valor comercial, que, em bainha de jornal, o dono conserva o fio e que provoca arrepio no maula mais colmilhudo pois sabe que corta tudo sem refugar desafio.
Xerenga velha, que o dono precisou num entreveiro e enfrentou três forasteiros que provocavam enrasco, peleou sem fazer fiasco pra resolver o litígio e, se não fosse o “cutillo”. teria juntado os cascos.
Matungo, guiapeca e xerenga, do mesmo naipe esta trinca; suerte que a tava finca numa clavada baguala, petrechos da mesma iguala, trastes que valem ouro pra quem carrega o tesouro de baixo do próprio pala.
Rude espólio do gaudério despilchado e sem vintém que troca a força que tem por um sortido capenga, mas mesmo a sorte andarenga que teima em lhe refugar não impede de ostentar matungo, guaipeca e xerenga.