Alma em Verso
Poesia

Entre a Quincha e o Esteio – Maximiliano de Moraes

Maximiliano Alves de Moraes

IV Colheita de Versos Abdon Batista - SCPublicado em

Resolvi fazer meu verso. O que deixo pra ser lido Quando eu tiver partido No meu vôo migratório. E não me prendi em rimas, Pois durante esta estada Eu busquei a perfeição E nela não me encontrei.

Resolvi fazer meu verso Observando uma fresta Entre a quincha e o esteio. Morada de uma andorinha Que ao verão ia e vinha Mas, este ano, não veio.

Tem algumas primaveras Que eu encordoo mates Debaixo desta figueira. Tem algumas primaveras Que sonho sonhos alheios E a companheira andorinha Vem pousar de tardezinha Entre a quincha e o esteio.

Sempre vinha, Mas, este ano, não veio!

Passei a pensar na vida E no que há depois dela, Passei a pensar na vida Olhando pela janela De um rancho imaginário, Do qual ao ser solitário É obrigatória morada. Seja ao laço de partida, Seja ao laço de chegada!

Todo voo migratório Tem um retorno futuro. Será que o lugar seguro É o ponto de partida? Será que por isso a vida Seja como uma estação? Como o ciclo da andorinha, Vai embora com o outono E retorna no verão.

Antes de alçar meu vôo Há alguns aprendizados Que devem ser registrados Em um verso de estrivo: Não deixem de amar bastante, Usem muito o coração! Nunca contem com o futuro, O retorno é inseguro, Pode haver ninho vazio Em um próximo verão!

Domem bem os seus cavalos, Cuidem deles como amigos. Entre um afago e um laçaço Fiquem sempre com o primeiro. Um cavalo companheiro Jamais negará estrivo!

Atentem sempre àqueles De melenas “tordilhadas”, É comum que sob elas Morem ideias sensatas, As que levam aos atalhos De uma vida bem trilhada.

Acordem de madrugada. Tomem seus mates solitos. Solidão é necessária Pra alinhar os pensamentos!

Escutem a voz do vento, Ela trás de muito longe Dizeres de liberdade E grandes ensinamentos!

Não pisem o pala alheio, Não deixe o seu ser pisado. Um aparte de rodeio Num pingo de pata e rédea É algo que nesta vida Deve ser experimentado!

Também um lenço no ombro E um chapéu de barbicacho Meio torto, aba quebrada, Pra gavionar em bolicho, Cancha de tava, carreira. Essas coisas na fronteira Não podem ser relegadas.

Cuidem bem do seu jardim. As flores serão lembradas Quando estiver próximo o fim!

A prenda é rosa trigueira E os piás lindos botões! Suas maiores emoções Brotarão de uma roseira!

Amigo não dá em macega, Nem se adquire em balcão! É uma planta sagrada Que deve ser irrigada Com a água do coração!

Estes singelos ditames Vêm a quebrar um ditado: Conselho bom não é dado! Se fosse bom venderiam!

Pois saibam que a esta altura Aprendi uma lição: Tudo aquilo que é vendido Pode ter grande valia, Mas não vem do coração!

Juízos que deixo em linhas Para que ao alçar meu vôo Outros possam apreciar E tirar sua conclusão, Pois eu, já tirei a minha, Com a falta da andorinha Sob a quincha do galpão!

Nesta tarde, sem vizinha, Resolvi prosear comigo. Tomei o mate de estrivo E a cuia caiu da mão. Sob a velha figueira Foi o meu bater de asas. Terminou o meu verão.

Crédito da fonte: Maximiliano de Moraes