Alma em Verso
Poesia

Memorial de Quatro Braços

José Oliveira Estivalet

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Sol da tarde incandescente, Braça e pico pra se pôr... Um quero-quero abre o peito Num alarido estridente, Anunciando que tem gente Rondando o passo da várzea Única porta de entrada Daquele fundão de campo Da Fazenda Bela Vista, A invernadinha dos fundos Onde mora Dona Chica.

Viúva do Bento, o posteiro, Que morreu numa rodada Dum mouro marca borrada, Refugado dos ginetes Que lhe deixaram aporreado E vivia solto por maula... Retoçando pelos campos Como rei das pradarias, Narinas arregaçadas E a cola hasteada em bandeira.

E o Bento, lhe cobiçava, Cada vez que o vislumbrava Sua mão acariciava A boleadeira charrua, Que tinha endereço certo Ao desprender-se do braço E nesse caso era o mouro, Nas munhecas do pavena, Para escutar o estampido No serrar das três marias...

Num temporal de verão, Uma enxurrada medonha, Descendo as águas das sangas O arroio transbordou, Ficando ilhado o varzedo Naquele fundão de campo... Rancho, potreiro e manada, Todos do lado de cá... Tudo o que o Bento queria Pra fazer aquele mouro Conhecer marido brabo.

Assim que a chuva passou E o sol voltou a brilhar, Bento montou um cabos-negros E, investiu contra a manada, Quando o maula se apartou Na volta de um caponete E as três marias certeiras Abraçaram-lhe as dianteiras Fazendo trocar de ponta, Qual um gigante de crinas Desabando entre as macegas Marcando aquele lugar...

Num upa estava seguro; Buçal e cabresto forte Na cincha do cabos-negros, “Manoteando”, se golpeando, Bufando e dando “pataços”, Mas, sendo quase arrastado, Mais brabo e mais contrariado Que nem gato cabresteando, Que cincha tinha sobrando Aquele baio apoderado.

Foram dez dias de lida Adelgaçando o ventena, Banhando, tirando as cócegas, Fazendo correr na volta Num maneador de seis braças A estalos de arreador... Depois o cabresto forte, Bem torcido, bem sovado, Com duas voltas passadas Num palanque de pau-ferro, E as duas presilhas presas Naquela argola de aço De um buçal desnucador.

O mouro não mais sentava, Deixava ser apalpado, Tava igual cavalo manso Mas, tinha um olhar raivoso, Parecendo uma cruzeira Prontita pra dar o bote... E o Bento senta-lhe as garras Com toda a calma e perícia, Conversando, assoviando, As vezes cantarolando E o mouro nem se mexia.

Nisso chegaram dois peões Prontitos pra amadrinhar, Estava o mouro encilhado E o Bento, chapéu quebrado, Bombachita remangada, As nazarenas calçadas E a guaxa na mão direita,

Como a medir traço a traço Daquele diabo encilhado E o mouro por sua vez Também media o ginete...

Depois de bem orelhado, Ginete já enforquilhado, Corpo atirado pra traz, Mandou que soltassem o mouro E dessem um tapa no focinho... Deus do céu... Virgem Maria... Quebram o silêncio da várzea Com a fúria de um maremoto Parecendo ondas gigantes, Quando iam pras alturas E ao voltarem arrancavam Leivas de pasto do chão.

De longe se ouvia os berros E a guaxa batendo forte, Logo um silencio de morte Bem onde fora boleado, Pois não é que o desgraçado Se da volta pelo ar... Se devolvendo prá terra Pra nunca mais levantar... Pois teve o pescoço quebrado E o Bento, morre apertado Nesta medonha rodada, Com as sete dentes cravadas Na pança deste aporreado.

Primeiro enterraram o mouro Bem na marca da rodada, Um pouco acima da estrada E abaixo do caponete... Depois velaram o ginete Para então ser enterrado Em outra cova ao lado, Do mouro passarinheiro, Rude memorial campeiro Onde uma cruz de pau-ferro, Diferente, quatro braços, Marca o final de dois guapos Que talvez rondem a querência...