Memorias
Publicado em
Tanto tempo depois de cargas e atropelos, não perdeu-se o eco dos ventos seculares, atravessados das janelas que espiam das missões... Também, ainda vivem o sopro de vozes que retumbam das datas sem calendário...
Como antes, tão pouco sucumbiu a força do músculo do boi, ponteando, hábil, o arado, sulcando a terra de sementes em defesa da vida e desses homens-índios.
Nem o tempo, nem os relógios, marcados pelos sinos das catedrais, mutilaram-se para perder nos rastros da história a memória de tantos povos, irmãos de luas, sóis, torres e cruzes, tão fincadas nos alicerces de crenças e rituais, como a empeçar acenos às estrelas.
Talvez... O próprio decorrer dos séculos, por aladas caravelas ou por picadas escuras, ou ainda pelos ancestrais em enseadas, desembarcados, tenha sido feito o coração, na origem dessas missões. Quem sabe o primeiro mate, o esplendor da luz de um foguito, a fumaça e a cinza dos lenhos...
Mansamente solitária a jornada de labuta dos lendários guardiões dos sete povos. Caciques, Tupãs e gerreiros, rasgados em chagas no árduo trabalho de defender a prole, o rebanho e o milharal. Com chumbos de garruchas, vindos dos gatilhos além-mar, foram se abrindo feridas nos peitos para irrigar a sangue fazendo barro vermelho sob os pés.
Sim, com certeza, as lanças desses guerreiros de sóis e luas, Deuses de campo e de chuvas, renasçam todos os dias em nosso alento ou acalanto. São eles que vem buscar nossos braços para arremessá-las sangrando horizontes na imensa grandeza do infinito.
Nos livros em página, abertos derremotos das eras, ficou a esperança de luz no fim do corredor, que se alarga a cada passo. A mesma tangência dos mesmos sinos das catedrais, de outros séculos, passados, mas tão presentes como a ressonância do canto de seus povos. Já não mais mitos mas vivas almas, guardadas e protegidas no mais rico manuscrito do pergaminho dos tempos, que não perdem-se jamais.