Meu Cusco Overo
Publicado em
Eu tinha um cusquinho overo Quando eu era piazito Ele era tão bonito, Tão bonito que nem sei ! E buenacho, companheiro, Pois no serviço campeiro Era cachorro de lei. Onde eu andava, ele junto... Pra arrastar água, passear, Ir ao moinho, pescar, Buscar as vacas – em tudo – Mosquito sempre ao meu lado Num trotezito pulado... -Oh ! Guaipeca macanudo. E peleador que era o cusco !... Um dia peleou solito Com os viadieiros do Tito... - Deus do Céu ! Virgem Maria ! Eu tive só que apartar Senão eles iam se matar... Mas fugir ? Ah! Não fugia. Peleador... Bom pra caçar... Amigo da criançada... Então numa campereada, Como ajudava os peão ! Trazia na qualidade, Na valentia e amizade, Um retrato do rincão. Bueno, encurtando o causo, Eu com franqueza le digo Que o meu melhor amigo Nos tempos de piazito, O mais fiel companheiro, Entre todos o primeiro, Foi o meu cusco Mosquito. Certa vez... Faz muitos anos ! A estância se alvorotou Com a chegada de um doutô Que vinha ver o patrão. E foi essa a vez primeira Que um auto – que barulheira – Pisou naquele rincão. Fiquei bombeando escondido Lá no fundo da mangueira Com medo da roncadeira Que fazia o automóvel. Parecia uma tormenta Que lá bem longe rebenta... Lá longe na Serra, chove.
Mas o Mosquito, esse não ! Achou que era bandalheira Aquela tal barulheira Bem na casa do patrão. -Era assim que se ia entrando ?! E já se tocou acuando Pra riba do animalão. Mas o auto não parou... O Mosquito embrabeceu E bem pra frente correu Procurando uma peleia... Nem lhe conto... Foi só um grito... E lá ficou o Mosquito Esmigalhado na areia... Chorei muito, amigo velho... Eu perdera o meu Mosquito, Aquele cusco bonito, Tão bonito que nem sei ! Depois peguei duma enxada E, desviando da estrada, Abri uma cova e o enterrei. Quase botei uma cruz Ali aonde ele ficou... Mas um peão me alembrô Que cruz é só pras pessoa. Ele bem que merecia !... Tinha muito mais valia Que muito defunto à-toa ! Já que cruz não tava certo, Fui até uma coronilha, Fiz ali uma forquilha E enterrei donde ele estava. Finquei no chão com firmeza Pra que ficasse em defesa Do cusco que eu tanto amava. E a forquilha inda está, Lembrando meu cusco overo, E recordando o sincerro Da tal civilização Que um dia entrou no meu pago E já foi fazendo estrago, Entristecendo o rincão.