Meu Pai e Eu
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Eu fui criado assim, gato selvagem, Nos arredores da cidadezinha, Guri sempre fugido pros potreiros Onde pastavam vacas e cavalos; E eu por eles já sentia estima E esse fascíneo que até hoje sinto. Nenhum cuidado me zelava a vida, Queria era viver a liberdade, E aprendi a defender-me dos perigos Por puro instinto.
A importânte pessoa dessa infância Foi meu pai. Mas meu pai era assim, a lei, o aço, O que não transigiaem meus deveres. Só sabe Deus o que terá passado Em sua vida pobre. O sofrimento Como que o dotara duma carapaça Que o fazia parecer imune À fome e à sede, Pra que moldasse o corpo em argamassa. Hoje penso que a força da cobrança Ensinou-me a esgrimir contra a parede.
As suas bondades Eram dissimuladas aos meus olhos, Que só o viam duro, teso e forte. Pra mim, meu pai era um palanque Assentado à frente do seu rancho Insensível ao frio ou ao cansaço, Incapaz de desviar-se do seu norte.
Nem nas amargas maldizia a vida, Nunca lhe ouvimos uma voz de queixa, Pois não se permitia comiseração. Muito ao contrário, reagia duro: A vida é luta, vence o mais capaz, O que mais suar sobre seu eito, O que mais cedo madrugar.
Em pequeno, muito vagamente Lembro seu colo, Substituindo a mãe, que já se fora. Mas essa imagem me é tão remota Que raras vezes a reconstituo. O tempo que me vem mais à memória É o do guri que, mal a Lei saía, Largava tudo pra voar na rua.
Eu amava meu pai e não sabia, Ou, se sabia, Tratava de ocultá-lo de mim mesmo. As manifestações de afeto familiares Pareciam perturar-me a natureza.
Eu era apenas um menino Que se omitia em demostrar ternura Temendo que algum gesto de carinho Pudessem confundir-se com fraqueza.
Havia vezes em que eu o odiava E o rejeitava, ao me sentir sozinho, Porque cobrava cada ato falho, Porque ralhava contra qualquer falta Que pudesse levar-me ao descaminho.
As palavras de meu pai eram tais ordens Que se devia cumprir de qualquer jeito. Dessas palavras, e dos gestos fortes Ficou-me para sempre esse preceito Do amor ao trabalho e à família.
Mas o trabalho, nesses longes tempos Era de sol a sol, áspera trilha Que se devia abrir com toda a força E renovado vigor, a cada dia, A vida inteira.
Já a família se agrupava muito, Toda a probreza era irmãmente repartida
E a dor e a enfermidade eram veladas Em conjunto.
A cada filho que se emancipava Suando seu salário, O tratamento de meu pai ficava ameno, Talvez mais doce, um pouco mais sereno, Mas a cobrança seguia ao necessário.
Nunca o vi chorar. Seus sentimentos eram tão cerrados Que foi preciso me fizesse homem Pra desvendar o seu amor imenso. Esta descoberta veio aos poucos, A idade chegara para todos, A lei passou então a ser mais branda E o cuidado talvez menos intenso.
Eu, Que me fiz adulto antes do tempo, Saí de casa como um filho sai, Sem saber o quanto a rua me ensinara Nem atinar a força da argamassa Que herdara de meu pai.
Nem eu mesmo sabia de que pedra Eu era feito. Tinha meus sonhos E a insegurança daquele que começa, Quando atirei a vida sobre os ombros E parti para o mundo a me provar. O medo de ser frouxo me assustava; Eu sabia que atrás de cada esgrima Havia uma parede Que não me deixaria recuar.
Hoje a vida passou, vou cerro abaixo, O corpo vai sofrendo seus estragos, Mas me alegra saber que o coração É pedra doce, - fácil de amoldar, Mas que sofre sozinho nos seus medos E jamais reparte seus fracassos, Pois não lhe permitiram nunca O direito de chorar.
É nessas horas Que meu velho volta e me levanta Na palavra: Assim é a vida, só vence quem lutar. Aperta o coração, afirma o braço, Ergue a cabeça e segue em frente. Lá é teu lugar.