Meu Verso Veio da Terra
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Um dia me perguntaram De onde veio o meu verso.
Respondi: Vem bem de perto, Das estâncias, dos ranchitos, Dos que encilham solitos E vão ao campo assoviando Quando o sol vem campereando As barras de um novo dia.
Vem da carreta que rangia Deixando linhas na estrada, Pra uma tropa de cruzada, Riscar de casco a poesia Com berros por melodia Para ecoar nos varzedos.
Bem daqui, donde a saudade Se finda tomando um mate, Quando o silêncio se parte Para escutar um conselho, Pois todo pai é um espelho Que deixa um norte pro filho
Bem daqui, donde o potrilho Se forja nas “precisão”, Onde o aperto de mão Mostra a firmeza do amigo, Donde a milonga é um abrigo Nas horas de solidão.
E foi crescendo aos pouquitos Nos fogões de acampamento, Garantindo seu sustento Nas voltas da recorrida, Cantando vaca parida E alguma outra extraviada...
Depois, ganhou madrugadas Co’ a cordeona botoneira, Gineteando uma vaneira Num campo de duas notas, De gastar sola de bota Numa trova romanceira.
Assim, foi vindo o meu verso Cruzando várzea e coxilha, Dando “forma” pras tropilhas E serviços pras mangueiras, Gauchando à sua maneira, Terrunho por atavismo...
Se acampou no telurismo Desses recuerdos que planto, E andejou mais um tanto Pelos rastros do pampeiro, E conheceu dos yuyeiros As curas que vêm do campo!
Um dia me perguntaram De onde veio o meu verso...
E, respondendo, confesso, Trouxe dos pais dos meus pais, Das sabenças ancestrais Doutoras dos corredores, Das taperas, paradores, Do barro dos mananciais.
Meu verso, somos iguais, Nascemos pra ser querência, Estanciados na vivência Que a pátria pampa ensina, Pois ser gaúcho é a sina, Que temos por referência.
Tirou o peso do estrivo Quando apeou por aqui, No rancho que eu construí Quinchado de inspiração, Onde a alma e o coração Se juntam no mesmo espaço...
Feito uma armada de laço Que busca aquele que berra E, por campeiro, não erra Nem cerra pela metade. Pra dizer bem a verdade, Meu verso veio da terra!