Porteira Fechada - Não Se Vê Ninguém Voltando
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Quando a filha de dez anos morreu nos braços da mãe num casebre de arrabalde, João Guedes cerrou a porteira, agora... a do coração... Já não sentia mais nada, não sentia, nem sofria, nada sabia dizer, nada podia fazer, vivendo assim retirante se esvai repartida a vida... um mundo posto de lado outro deixado pra trás.
Uma hipoteca vencida... o patrão perdera o campo sinistro pêndulo humano no galho alto do angico. Uma primeira porteira fechara-se para João Guedes, o campo agora é passado. À frente um futuro incerto. Vendeu um resto de safra mulher e filhos por diante garrou a estrada do povo com jeito de nunca mais.
O luzeiro da cidade atrai homens como insetos sem perdão depois os larga pra o lado sombrio da vida. A infância uma pandorga sem sonhos para voar inocência aprisionada no sinuoso dos becos. O tempo jamais permite descaminhar o caminho talvez por isso na estrada não se vê ninguém voltando.
A charla com outros parias na pulperia à tardinha, recuerdos de um braço forte, de fazer parar uma armada campeando as aspas de um touro. No pó dos dias, das ruas, uma alpargata barbuda tranqueia atrás de trabalho enquando a mulher fenece cuidando filho e faxina e o mouro, amigo do arreio, sombra, na sombra do oitão. Silhuetas em movimento numa noite muito escura no ermo de uma restinga. Uma voz corta o silêncio: - Levante as mãos teje preso! Bateu na cara, de seco, a mais cruel das porteiras. Maleva, agora João Guedes pena na cela pequena, bem menor que a vergonha, a dor de ter sido pego carneando chibos alheios.
Tempo depois, asas livres não tinha o olhar de antes fechou mais uma porteira ao trocar fletes e arreios pelo caderno da venda. A vida parece um brete! Uma filha criou asas a outra, que Deus a tenha, o guri, há de ser Bueno. Parece, agora, entender porque na estrada do povo não se vê ninguém voltando.
Ninguém sabe, ninguém viu, o corpo encontrado numa manhã brumarenta olhos no céu, beirando a sanga. Tenho pra mim, desta vez que a mão pia e caridosa abriu pra ele, afinal, a derradeira porteira mostrando-lhe um campo novo. Se certo?! Ainda não sabemos, porque também nessa estrada não se vê ninguém voltando.