Alma em Verso
Poesia

NA TAFONA DO SEU DUGA

Prás bandas do palmital, onde o sal tempera o chão, Nas manhãs frias de julho a lida desperta o sol, Pr’alguns Joões que a vida, não foi assim generosa, Pois, nesta plaga arenosa, quando opções se consomem, Se não vinga outro plantar, mandioca por tradição, Faz matar dos seus ( a fome ).

A carreta corta o luto, da madruga que deu cria. Mandioca vazando as tampas, cerca o destino final, A Tafona do seu Duga, lá prás bandas do Caconde, D’outro lado do canal. . .

Planta no chão, o rodado, uma espécie de roteiro, Que o cusco Fiel, parceiro, do paradeiro escolado, Bem de perto, garroneava, num tranquito cadenciado. . .

Sete sóis de farinhada, que empeçavam no canal: Lavagem do material prá “facilitá” o capote, Onde os pares frente-a-frente, parecendo um ritual, Num trabalho à quatro mãos, raspam da mesma raiz, Sua pelagem mais grossa, deixando limpa a mandioca, Para o ciclo da moagem. . .

- João, me prense a massa ralada, recolha o suco escorrido, Pois do tal, o contenido, garante o polvilho azedo, Do qual pitadas certeiras, numa receita caseira, Ressuscita antepassados, nas broas, bijus, cuscus E demais assemelhados. . .

- Uma fornada já foi, veja se o forno está à ponto. Solte o brasino no campo, depois encangue o carvão, Bem ajojado ao timão, sem te olvidar dos antrolhos, Sobreposto sobre os olhos, prá que o boi não fique tonto. . .

Caramba como faz frio nestas noitadas de julho. . . Amadrinhado à fonalha, monto a cama de pelêgos, Porém, meu desassossego, é um coração que aos pinotes, Parece fugir do peito, quando lembro da Palmira, “Trêsontonte” uma menina, e agora já tomou jeito. . .

Faz mais viva as esperanças, minhas preces sussurradas. . Não há de ser nada, um dia, não nego, falo a verdade, Confesso pr’essa guria, da insônia que me judia, Noite adentro, madrugadas. . .

A lide traz alvorada na ordenança do pai: - João, me faça uma peneirada, desta fornada que sai, Separe esta Caroeira, prá tratar a criação, Que a mesma mesclada em água, ala puxa! Nem te conto, como vinga a bicharada. . .

Velha tafona silente, que minha infância guardou, Do teu galpão despojada, restou-te um canto de sala, Deste museu que te herdou. . . Do velho ofício, ( uma arte ), herdaste tão só invernadas, Ponchadas de mil recuerdos, que o moderno cabresteou. .

Velha tafona de lidas, que foste parte da minha, E de tantas outras vidas. . . Teu silêncio grita alto ao Rio Grande de bombacha, - Cadê meu rancho galpão, carreta e boi tafoneiro? O velho capote a dois? Onde o flerte já sabido, Num jogo de vai-e-vem, foi o correio de quem, Do verbo era desprovido. . . Roçar discreto de mãos, palavras mudas trocadas, Romances nascendo assim, destes sim, sem dizer nada. . .

Caso meu grito c’o teu prá conclamar o meu chão: - Vamos cultivar o velho, não se “olvidar” do passado, Mesmo quando precisado de cambiarmos pelo novo. . . Prá que raízes não morram, e preservemos memórias, Que é parte da nossa história, bem maior do nosso povo. . .

Crédito da fonte: Sebastião Teixeira Correa e João Marin