Não é o Fim
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Os meus longos e negros cabelos Emolduravam histórias na minha pele rude Tal qual a noite com a sua veste escura Morada da lua em toda a sua plenitude!
E as minhas pequenas mãos curtidas Antes tão macias - após anos, já não mais - Traziam em si muitas linhas definidas Por amargas penas, na porfia dos meus ais...
O sal que habitava o meu olhar castanho Vez por outra, banhava o verde amargo... Sorvia o tempo - entre as perdas e os ganhos - E me reencontrava no que sou e no que trago!
Eu fui menina, fui moça e... sempre mulher! Mas, com certeza, esse não era meu resumo... Forjei-me gaúcha, desafiando esse mundo E me fiz querência, sem jamais esmorecer!
Depois que perdi meu maior e grande amor... Mãe campesina, jamais me entreguei ao luto! Encontrei forças para então vencer a dor - essa passagem não seria o fim de tudo -
Filhos amados, duas quadras e saudades E a felicidade no abraço do meu neto! - o tempo voa e sabe o tempo do que é certo, Eu via meu velho, redivivo em mocidade...
Não me dobrei à essa maldade do destino! Mantive os sonhos, ergui um lindo pomar... Guardei a fé para criar os meus meninos, Moirão no tempo...e três sinas pra alambrar!
Meu mate bueno, ficou lavado - entre as mãos - Pesou na cuia, que mal e mal cabia à palma... Futuro incerto a sangrar dentro da alma, E olhar campeando por entre o sim e o não...
Rangeu a porteira na mão pesada do vento, Lua e estrelas chegaram, perfurando o manto Da noite negra, embrenhada sul a dentro, E eu "me morria", no galpão, um outro tanto!
No corpo as marcas impressas no dia a dia... Cansei meus passos... deixei rastros no sereno... A vida escorria nos meus cabelos morenos, Sabendo bem que eu já não era mais guria...
A casa antiga, de repente, se fez longe... Falseei a perna, e o coração me traiu! O chão rodou, fugiu de mim, se escondeu, A força faltou e a respiração se esvaiu!
Girou meu mundo, rodou todo o firmamento No tombo forte, a velha cuia foi ao chão! Pressenti o fim a se achegar na escuridão Com pasto e terra atestando o passamento...
O silêncio pleno, ficou a gritar por mim, Em meu corpo inerte, tombado, sem reação! Me acudiu o neto, em sua inocência de guri, Por que meu Deus, castigar seu coração?
Ninguém consegue ludibriar a própria sorte... Nem tudo termina da maneira que se quer Eu fui menina, eu fui moça e... sempre mulher! Vencida, enfim, pelo pealo da morte...
Rangeu a porteira, pela mão firme do tempo... Foi ele, ao certo, quem me impôs a situação! Seus comensais, invejavam meus cabelos negros E não sossegaram, enquanto não me viram ao chão!
Até um grilo que ainda cantava insistente Calou seu canto, em respeito a essa hora... Em correria, gritos de gente e esporas, E até a lua se escondeu por um instante!
Mas num repente, um homem guapo e garboso Estendeu a mão, e me ergueu, em plena forma! Era o meu velho, com olhar de homem moço, Que me abraçou, trazendo luz para essa hora!
Tranquilamente, ele me disse com seu zelo: "Não chores mais, cumpriste a sina junto aos teus... Virás comigo, para viver nos braços meus E terei de volta esses teus negros cabelos..."
Ah, existe amor que a aguardar se prontifica... Porteiras se abriram, nas mãos da felicidade! Coração partido pela ausência de quem fica, Mas renovado pelo término da saudade...
Demos de rédeas... com minha missão cumprida! Mas deixei um pouco do que fui pra minha gente... O meu carinho e o meu amor serão sementes Pra que possamos nos rever, em outra vida!
Por divina obra de Deus O nosso espírito é imortal! Sendo assim, nossa matéria É meramente uma morada... Desprender-se, tão somente, É um processo natural Para que a gente possa, enfim, Voar de novo para as "casa"!