Relato de Campo e Mar
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O temporal foi se armando Lá pras bandas do poente, Arregimentando os ventos E entropilhando as nuvens Que até então, emolduravam O céu, pendendo a escarlate.
O pescador e seu filho - Um gurizote franzino Mas de olhar penetrante, Esperto e já “veterano” No ofício que deu-lhe o pai Foram recolhendo as tralhas Pra dentro do barco tosco (Sua lida e ganha-pão).
“- Vê se te apressa, Juvêncio, Não vê que vem se formando Um pé-de-vento violento Que, se nos pega de jeito, Nos arrasta mar adentro ?
- Vamos, guri, não te achica Que hoje as águas já nos deram O que tinham que nos dar ! Tua mãe já ta preocupada E, garanto, atarantada, Por certo está a rezar.“
O gurizito, obediente, Foi se aprumando, contente, Içando as velas surradas, Deitando os remos nas ondas Que cresciam, num repente. Na proa o velho Laureano, Com a fibra de campechano, Dava de mão em suas redes Com alguns peixes minguados Que “inda” lograram pescar.
Enquanto o barco guapeava Peleando, entre as fortes vagas, O piazito imaginava Como seriam as plagas Que ouvira o pai comentar.
Como seriam os campos, Planícies e pradarias De onde, um dia, como tantos Cercados de desencantos Seus pais ousaram partir ? . . .
No casebre litorâneo Crescera, em meio à labuta, Sob o signo da luta, Curtido de areia e sóis.
Sentindo a brisa, por gosto, Fora “templando” seu rosto Nas maresias de agosto, Contemplando os arrebóis !
E, entre magoas e alegrias, Os pincéis da fantasia Pintaram – com maestria – A inquietude de seus dias Entre espinhéis e anzóis.
Em meio a contos e cantos De domas, de gineteadas, De tropas, de carreiradas, Peleias e outras façanhas Fora crescendo o piazito . . . A questionar-se, solito Como seria esse “mundo” Além daquelas montanhas ? . . .
Quando no catre, contrito, Um pensamento esquisito Tomava forma, insistente, E se alojava, inclemente, Nos confins de sua mente Para depois florescer . . .
Tanto foi que, certa feita, Depois de noites e noites De insônias e de açoites, De refletir e sonhar, Num esforço sobre-humano Chamou o velho Laureano, A velha mãe Ambrosina E, num jeito respeitoso, Aquele filho zeloso Passou a confidenciar.
Contou-lhes o que lhe ia No fundo do coração: Que também tinha vontade De sorver a liberdade, Qual ave de arribação . . . De buscar outras paragens, Beber do mel das paisagens Que ouvia o pai descrever.
A mãe velha ouviu, paciente, Todo o relato sentido E, num gesto comovido, Beijou o filho, silente, Enquanto o pranto latente Rolou no rosto sofrido.
E o velho Laureano, taura Que enfrentou tantas refregas Negaceando os desenganos, Juntou, da névoa dos anos, A força pra não chorar. Abraçou o rapazote E, quando apontou-lhe o Norte, Teve ainda a fidalguia Daquele filho abençoar:
“ – Vai com Deus, filho querido, Rebenta teus aramados, Em busca dos descampados, Das várzeas e coxilhões; Vai em busca dos rincões, Furnas, peraus e grotões Dos quais eu e tua mãe Não esquecemos jamais . . .
Quanto a nós . . . cá ficaremos Em meio a barcos e remos Pois o galope dos anos, Que atropelou nossos planos E nos branqueou as melenas, Nos deus as águas serenas Da paz, do amor, da verdade.
Mas ouve nossos apelos: Leva em teus “magros” peçuelos - Repletos de mocidade – Um municio de paciência Para abrandar a ansiedade E entrega àquela Querência A nossa grande SAUDADE ! . .