O Baile dos Cachorros
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Foi num tempo, há muito tempo Que este estória se passou. Tempo que os bichos falavam -Minha avó, assim contou:
A cachorrada haragana Que nestas pampas vivia Por todas as qualidades Que, em verdade, possuía: Sua grande lealdade, Amizade e harmonia, Foi premiada com um baile Por Cristo, Nosso Senhor. A ser feito em campo aberto -Lugar bento e de valor.
O alarido era grande Da “perrada” chimarrona. Da serra até a fronteira Da fronteira ao Uruguai, Desde as praias do Rio Grande Às coxilhas de Queguay.
Diz que por ordem maior -talvez do próprio São Pedro- Encomendou-se o conjunto Que animaria o pulguedo: Quatro bugios roncadores -dos campos do alto da serra- Bicho que canta muy lindo -crioulos aqui da terra- Dois Magangás Correntinos Com cordeona botoneira; Um Coati de bandoneon; Dois Graxains guitarreiros -ponteadores de primeira- Um Pica-pau no pandeiro Fundamentando a camanga -e tava pronta a vaneira!
E a cachorrada latia Faceira com a novidade:
-Um fandango deste porte Vai ser bueno de verdade! -Se a sarna me afrouxa o couro Bamo vê se não dô pata, Arrastando as alpargata Co’as cusca do Cerro do Ouro! E como cachorro e gente Não sabem fazer junção Sem terminar em peleia:
-Me disse a Jaguatirica, Decerto loca de inveja, Que joga até a cor das pinta Que o baile vai dar em treva!
-Vai dar é furdunço feio Se caso a gata atrevida Vié bancando a metida, Se entroduzindo no meio.
-Lá no bolicho da costa Um Leão Baio bebia, Fanfarronando borracho Que ia dança de espora...
-Não viu que tava oitavado, Num canto contra o balcão, O cachorro chimarrão Mais brabo da raça veia!...
-No resultado da história O tal felino valente Dormiu o resto do dia Com dois mangaço na idéia!
E assim corria a notícia, Causando grande algazarra, Como em qualquer ocasião Que prenuncia uma farra.
Na tarde do tal fandango, Numa várzea muito linda, Abençoada por São Pedro, Na costa do Camaquã; A mando, como se sabe, De Nosso Senhor Tupã, O arcanjo Gabriel E sua escolta celeste Iniciam a função: De limpar, fazer a copa, Cortar chirca e mata-lho; Quinchar o carramanchão.
E já desde muito cedo A coisa já estava armada: Pois era imensa a matilha De tamanha cachorrada.
E, de fato, prenunciado Que a coisa ia ficar feia, Já davam mostra do pano De como cachorro e gente Não sabe fazer junção Sem terminar em peleia.
Chegado a hora do baile, E tamanha confusão, O arcanjo Gabriel, Juntamente com seus anjos, -que era polícia da festa- Veio trancando o garrão.
E gritou pra cachorrada, Com jeito já meio brabo:
-Vai começar o fandango! Mas por ordem de São Pedro: Em terreno Santo e Bento É de faltar o respeito Cachorro dançando com o rabo!
Ordem dita é ordem dada! E cachorro que passava Pela entrada, já deixava, -num imenso gancheiro- Devidamente nomeada, A cola, dependurada.
E o baile corria frouxo No meio da polvadeira, Enquanto a orquestra crioula Tocava chotes, rancheiras, E milongas e valseados, Chamamés e chamarritas E mazurcas e vaneiras.
Quando não mais que num upa -e por causa de cadela- Estourou a confusão: Diz que um galgo castelhano -Correntino ou Entre-Riano- Acostumado na lida, Escondeu palmo de adaga Nas costelas de um cuscão.
E no mais, já nem precisa Se dar mais explicação: Derrubaram o candeeiro E o fogo dos trinta e oito É que serviram de lume Pra quem queria função. Quando o arcanjo Gabriel -com mais oito provisórios- Carregaram no entreveiro Pronto e de talher na mão, Só viram a cachorrada Que espirrava porta-fora, Disparando alvorotada, De medo da confusão.
E por sair tão ligeiro, Cada cusco que passava Pela entrada, manoteava Qualquer rabo ali à mão.
Houve até alguma mais maula -riscado a relho dobrado- Que nem quis pegar a cola Que ficou no tal ganchão.
Taí o cusco rabão!
E por causa dessa rata, Nosso Senhor e São Pedro, Resolveram –com justiça- Não desfazer a trocança De rabos, do tal bailão.
E é por isso que o cachorro, Quando cheira outro cachorro, Vai, então, direto ao rabo, Procurando o próprio rabo Que –com certeza- extraviou-se Naquela triste ocasião.
Poema participante da 12ª Sesmaria da Poesia Gaúcha.