O Estouro
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Um corisco...retumbou tremeluzente prenunciando a tempestade! E a tropa sobressaltada redemunha encontradiça nas trevas da madrugada...
Um touro osco-fumaça rotulado por feroz nos meandros de um rodeio, tranqueia teso bufando como um caudilho em revista ás tropas de seu comando...
O ronda corpeia o flete pra o rebelde irracional se apartar no campo aberto... foi um abrir de comportas pra um represa de touros, rolando pelos acasos do mais selvagem estouro!
Um mar convulso de chifres e um trovejar barbaresco de alambres, cascos e ossos assombram a noite voraz, num quadro mais que macabro aclarado de improviso num relâmpago fugaz...
O indiscritível furor do tropel alucinado lembrava trágicas lendas, e o pago reencarnado em atávicas contendas; ...a taquara contra o aço! ...o clarim contra o poema. ...os donos contra os intrusos! ...um lunar contra os escudos de mil Hispanos e Lusos...
...fantasmas sanguinolentos de bravos de outra cores, levando nos peitos negros
o rubro vivo dos rombos, pra um obscuro revide na “batalha dos porongos”...
...quando calou-se o estrondo de patas ágeis no chão, num pardacento arrebol ficou o eco de um trovão, qual gigantesco leguera sem consistência no tom...
Embarcados sobre o pasto novilhos agonizavam num inocente holocausto... a contristada dolência de tão horrenda lamúria, lembrava heróis da querência algozes da própria fúria...
o dia veio despácio alumiado por um sol desmatizado e escasso, com centenas de carniças numa clareira barrenta, pra ser banquete repasto da corvada famulenta...
Parecia tudo calmo nessa manhã malograda... Quando, no trono de uma coxilha um mugido imponente tronado como um mandado estremeceu os gaudérios. Era o touro osco-fumaça qual um rei petrificado mangrulhando o seu império...
Tinha na estampa de guapo o entono de um gaúcho: -No perfil da rebeldia a audaz ferocidade, e na indômita semelhança o instinto de liberdade!