Alma em Verso
Poesia

O Eterno e o Etéreo

Carlos Omar Villela Gomes

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O tempo tem movimentos que o eterno ignora, A eternidade é um momento que soma todas as horas. Não concebe pensamentos se esvaindo a cada instante, Pois somente resta eterna a ideia que se garante.

Os homens somam silêncios, mas também jorram os gritos, Que inundam os sentimentos de medos e frágeis mitos; Assim o eterno se expande, pregando seu evangelho, Grudado nos calcanhares dos passos falsos do etéreo.

O etéreo dá suas risadas de desespero volúvel, Na esperança frustrada de um crime nada insolúvel. Repete as cartas marcadas, deturpa o causo mais sério E afunda as almas cansadas, entre o eterno e o etéreo.

A solidão complacente, que desenhou novos dias Não sabe que a vida mente em tristes alegorias; É o etéreo desenhando grilhões e falsas verdades Sem entender que o eterno reside na liberdade.

O pampa sente o etéreo jorrar em cada vertente, Envenenando as jornadas timbradas de sol nascente; Mas o eterno atropela esse veneno terrível, Purificando as aguadas com seu amor invencível.

Eterno é aquilo que fica, etéreo é aquilo que vai, O eterno não modifica quando o etéreo lhe trai; O etéreo pesa nos passos que fraquejam frente à luta... O eterno reergue os homens com sua força absoluta.

O eterno vive em silêncio nas entrelinhas da história, O etéreo morre e renasce nas tantas curvas inglórias; O eterno move as montanhas, é seu perene sinuelo, O etéreo mente que a alma está no gris dos cabelos.

Encontrei a flor da idade, tão humilhada e caída, Quando o etéreo tocou-lhe, num beijo de despedida; O eterno, que viu tal cena, da flor se compadeceu, E resgatou-lhe pra sempre, num beijo vindo de Deus.

O etéreo prega suas peças em cada curva do rio, Propaga magras promessas da falsidade no cio. O eterno em si se rebela e verte o verbo mais puro; Curando um mundo às avessas, tombando as pedras dos muros.

Vi uma moça bonita, a perfumar a campina... Tanta ternura pulsando no coração desta sina; O etéreo ri dos meus sonhos, diz que a moça já passou, Mas na pureza do eterno o seu perfume ficou.

O eterno não é de chumbo, não é de ferro ou de aço, Mas por mais que seja imenso, pode caber num abraço; O etéreo parece eterno perante os olhos do mal, Mas sua profundidade não enche um mero dedal.

Por isso sigo nas pedras, pois aprendi a levitar, Além do etéreo suspiro que prende as asas do olhar; Alguns me chamam de velho, sem noção, sem realidade, Mas sou apenas um sonho... Um sonho de eternidade!