O Forneiro e o Porteirão
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O Forneiro, pássaro pedreiro, fez a proposta ao porteirão;
“Ando em busca de um lugar que suporte o xucro vento pra que eu faça um erguimento do meu ranchito de barro. Então, pensei no teu mestre, que é cambará - puro cerno - e zomba das intempéries pois já varou tanto inverno!...
“Em troca do território que para mim arrendarás, eu serei teu companheiro, te devolvendo esta paz - que nem sei se estás lembrado - quando eras tronco grosso, trono de asa em alvoroço, o rei do mato fechado!
“Cada aurora e a cada hora, se alguém retinir a espora, tirando a alça da tranca, eu chegarei frente à porta - junto com minha parceira - dizendo aos que te escancaram, que teus olhos não fecharam, e não és madeira morta!
“Direi a todos - num gesto - que bendigo a vocação de quem se fez abertura como a tua, Porteirão! Que quando o fio do machado te avistou, ensangüentado, não creu que fosses te erguer - tão bela ressurreição!...
“Os meus filhos emplumados, quando já emancipados para os domínios do céu, vão alardear tua imponência!
Que foi cá - do teu chapéu - o primeiro vôo da vida, abrindo estradas ao léu!...
O Porteirão - que é fronteira entre o campo e a poeira, entre o adeus e a chegada - respondeu para o Forneiro...
“Falaste que sou altivo: porém não acho motivo pra rir do gado que passa, do terneiro que não acha minha boca escancarada e pecha no trameirio. Só lembra do Porteirão quem, há pouquito, me abriu.
“Da estrada, só ganho o pó, jamais o “buenas” do andante. Já fui copa verdejante, hoje eu estou mutilado. Nasci do fio do machado e das mãos do alambrador. Sou planta que não dá mais flor, sou escravo do alambrado! ...
“Eu vivo cravado e só, e foste tu, bom Forneiro, o meu consolo primeiro - quando me ergueram aqui!... Pensei: “Não posso florir, do mato vivo apartado. Mas, se o teu rancho barreado brotar no topo de mim, terei, ao menos, saudade e a ilusão de não ter fim...”