O homem que a Deus esperava
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Um pealo do Patrão Velho Tirou-me a essência da vida Num sopro firme e certeiro... E aqui estou, solito, confuso... Contemplando em silêncio Esta partida de mim mesmo... Inda nem sei o paradeiro, Qual vou desencilhar minha alma!
Angustiado, sem entender... No compasso das horas, Deste tempo célico, obscuro, Vou percebendo minha ausência Na estância que há pouco deixei...
Sem avisos, sem alardes, Como um trovão sem maneias, Fui pealado em silêncio, Sem ter ao menos o direito De poder pedir... perdão!
Perdão, sim senhores!... Perdão pra os que me amavam E que agora me olham, Empacado e enrijecido Feito um punhal deslembrado, Por sobre a mesa da sala...
Perdão, por aqueles que esqueci E que, pelas voltas do tempo, Não me atrevi a desculpar-me Pelos enganos da vida...
Meu tempo findou, Como findam outros tantos!
Nunca pensei mirar meu corpo Deste além mundo improvável... Sonhava findar velhito, Com as mãos já enrugadas Por este tempo maldoso E pela labuta de outrora...
Sonhava em ver meus netos A correr pelos potreiros Sonhei tantos instantes... Sonhos moços, que morreram, Quando findaram minhas horas Nesta querência bendita Que me viu nascer e morrer!
O grande amor da minha vida Contempla meu corpo entristecido... Como se estivesse apenas, parado...
Amada, não chora! Preciso tanto te falar...
Devo-te um perdão meu amor... Perdão por tantas horas Que a fiz sofrer...
Tantos beijos que não dei... Tantas lágrimas que guardei... Agora juntas me cercam: Beijos doces dos teus lábios E lágrimas tristes dos teus olhos Que despencam no meu corpo frio!
Esqueci de ti tantas vezes Na turbulência dos dias... Vivi profundamente o meu mundo, Investi em tantas coisas, Reservei meu tempo pra horas perdidas E esqueci de dar meu tempo Pra os que me amavam!...
Flores... A última nem me lembro E agora estas coroas me rodeiam Com tantas cores e perfumes...
Ah... Se eu pudesse ao menos voltar... Num abraço te diria tanta coisa, Meu coração falaria... Ou apenas... um olhar... Mas que olhar, se estes olhos fechados, Condenam minha razão! Faria tanta coisa... Tanta coisa que eu não fiz!
Dei razão pra os que não tinham, Segui profetas, demônios... Virei as costas pra Deus! Tantas verdades... tantos erros, Que ao te ver aqui chorando, Também choram os olhos meus!
Meu filho chora num colo qualquer... Uma agonia, amarga e fria Tomando conta de mim Te vendo chorando Queria tanto só um beijo te dar Mas nem um abraço, Nem um toque de carinho, Nem tuas mãos posso tocar...
Como vou te abraçar Se não passo de um inerte De um ser que não existe... Se num infeliz piscar de olhos Tudo apagou para mim... Sobraram estes instantes Pra cobrar o meu passado!
E esta música tristonha Que paira neste lugar... Vozes roucas que acenam Pra partida de mim mesmo...
Chegou a hora... Nunca pensei em me ver Descendo ao chão assim... Terra e flores esquecidas Jogadas em cima de mim!
Apenas o gado xucro Pisoteia ao meu redor... Os que eram meus se foram embora... Restou-me a paz da solidão E a confiança que o Criador Possa aceitar o meu perdão!
Vagando por esta pampa, Revejo traços de uma vida Que não me ensinou a morrer Porque meus sonhos eram sós, Não tinham nada a oferecer... Deste além-mundo esquisito Estou mateando com a incerteza Desde quando a minha alma Desprendeu-se e foi ao léu... Assim choram os olhos meus Na espera de encontrar meu Deus, Pra me levar além do céu!