Alma em Verso
Poesia

O Meu Verso Envelheceu

Caine Teixeira Garcia

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O meu verso envelheceu Mateando ao canto dos galos, Com a encilha dos cavalos Bem antes do alvorecer... E vendo o dia amanhecer - bem orquetado nos “basto” - Criou, entre e céu e pasto, Motivo e razões de ser!

E se fez mossa e tradição De tanto calçar esporas! E pelo rosário das horas Sorveu tempo e distância... Capataz, peão de estância, Nunca foi senhor de nada, Aprendendo em sua jornada O que mais tem importância!

O meu verso envelheceu Milongueando em assobio... Cruzando várzeas e rios, A cavalhada em reculuta! E no rigor da sua labuta Tocou gadaria por diante, Num aboio e num reponte Que hoje pouco se escuta...

Aqueceu a alma nos fogões Pelas rondas nos bivaques, Mantendo tino e o sotaque Do campo e suas verdades... Chorou e sentiu saudades Aos olhos da noite escura, E sorriu de forma pura Frente aos sóis da liberdade!

O meu verso envelheceu Trançando corda e silêncio... Lonqueando aquilo que penso Forjando a minha essência! Se versejar é uma ciência, Verso e rima são munício Pra quem carrega o ofício De ser campo e querência!

Provou das vicissitudes Oitavado num bolicho, Olfateando algum cambicho Entre bailongo e junção!

E nos causos de precisão Coragem não lhe faltou, E dos talhos que levou Salvou sempre o coração!

O meu verso envelheceu - mantendo a sua bandeira - Com as raízes de fronteira Demarcando o território! E se a poesia é um ofertório Do que temos no rincão, Por ser cria desse chão Jamais será transitório!

Avançou na tarca dos anos, Ganhando a tez das geadas Numa melena desgastada Pelo rigor dos invernos... Não se rende, é puro cerno, Suportou o peso da dor É Rio Grande, sim senhor, Sem se dobrar ao moderno!

O meu verso envelheceu Tinindo a argola do laço, Aguentando o cimbronaço Até o estouro na ponta! E bem ao final das contas, Depois de campo e mangueira, Só um verso “de primeira” Honra a sina que reponta!

Mas está longe das tropas E já não para rodeios... Já se apartou dos arreios E da cantilena de esporas... Aliás, essas velhas senhoras Hoje estão emudecidas, N’algum canto esquecidas Se enferrujando com as horas...

O meu verso envelheceu, Não tem mais força no braço... Já não aguenta os puaços

Que a vida impõe ao campeiro! Nesses dias derradeiros Vai revivendo sua história, E no galpão da memória A saudade é um braseiro!

Vem se quedando meu verso, Tem rugas e mãos calejadas! Foi corredor... foi estrada... Foi sesmaria e imensidão... A consciência chama à razão, Vê que a vida lavou a erva E que o futuro lhe reserva Findar-se em verso solidão!