Alma em Verso
Poesia

o olhar da pedra

Carlos Omar Villela Gomes

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A pedra inerte mirava o tempo inquieto passar Firmava o olhar de pedra nas horas, sempre corridas; A pedra não tinha febres na sina de não andar... Queimava pelas fogueiras do seu desejo de vida!

A pedra sabia coisas que nem o tempo sabia E ria com toda a força nas horas de solidão; O tempo, que era ligeiro, muitas verdades não via E a pedra, por ser inerte, prestava toda atenção.

Estranho o olhar da pedra nessa coxilha vazia, Quando nem alma penada queria andar por ali... A pedra tinha belezas que sua memória trazia E nelas se debruçava nesses momentos sutis.

Há tantos milhões de anos a pedra mira este mundo, Desde o tempo em que o tempo não passava de um piá; A pedra sempre abraçada no seu instinto de pedra Assistia os elementos moldarem o seu lugar .

Um oceano maior que todos os oceanos, Onde a vida ganhou vida sob os olhares de Deus; Feras imensas reinando no mar e depois na terra, Numa saga primitiva que a pedra não esqueceu.

Assim passaram-se eras, espécies, raios, tufões... A pedra sempre assistindo o tempo inquieto passar; O início da humanidade ela bombeou de soslaio Sempre cumprindo sua sina de ser inerte e mirar.

Sentiu batidas de cascos, ouviu relinchos e berros, Quando cavalos e gado se achegaram de além mar; Viu a sede de conquista de quem chegou ao seu lado, O índio ser massacrado e a cruz sangrando no altar.

A pedra viu horizontes maiores e diferentes Quando assistiu nossa gente se erguer em revolução; Instintos de liberdade, a morte afiando os dentes E homens virando feras nas cores de um pavilhão.

A pedra rangia os medos de tantas almas feridas Que, na sina de ser pedra, não conseguiu socorrer; Já foi manchada de sangue, já foi riscada de aço, Mas nada afastou a pedra do seu destino de ver.

Viu tantas moças risonhas passarem rumo aos seus ranchos Ao lado de moços guapos, querendo semear futuro; Viu o gado vir tropeado, depois em monstros de aço, E viu o pago encolhendo nos seus valores mais puros.

Assim a pedra mirou, num resumo de resumo, E assim a pedra ficou em frente ao tempo inquieto; A pedra seguiu o tempo, mesmo inerte em seu sumo, E o tempo levou a pedra nesse seu vôo secreto.

E tudo aquilo que viu, tudo aquilo que colheu, Cada paisagem e rosto, cada momento de guerra; Mais que uma grande viagem que o tempo lhe concedeu, É o olhar firme do tempo plantando alma na pedra!