O Tempo da Saudade – Jurema Chaves
II Esteio da Poesia GaúchaPublicado em
Saudade é algo que fica Nas marcas que o tempo deixa De sonhos, risos e queixas Para nunca ser esquecido Algum momento vivido, Na memória da emoção E como um laço trançado Com tentos do coração! Que o tempo trança tenteando Deixando calos nas mãos.
Nas dobras da madrugada E que a saudade se recria Pinta, borda e tripudia, Num coração machucado, Docemente aprisionado, Num estranho bem querer. Tudo que tento escrever Tudo o que eu quero juntar Vive o tempo a separar Levando o que eu quero ter.
A saudade não tem mais jeito Do jeitinho que ela tem Abre a cancela do peito E traz de volta quem não vem Cria silhuetas nas sombras Empurra a porta e arromba, Sem perguntar pra ninguém.
Saudade é coisa esquisita Só faz um taura sofrer Não deixa a gente esquecer Um perfume sobre o catre, Amarga o gosto do mate Sulcando marcas no rosto Timbrado pelos agostos A melena encanecida Buscando réstias de vida Com olhar de sol já posto!
Saudade é minha parceira Pra onde vou, de onde eu venho, Saudade é tudo que tenho, Dorme comigo e me abraça Bebe o vinho e quebra a taça, Nunca me deixa sozinho E como a flor com espinho Que nos machuca e perfuma, Com seus fantasmas e brumas Cicatrizando os caminhos!
A vida, o tempo, a saudade Esse trio onipresente E chora o taura contente, Rascunhando a sua dor Se faz poeta, cantor Abraçado na guitarra Solta a alma de cigarra, Em verões plenos de amor.
Assim desabafa o pranto Sobre a branca celulose Que estranha simbiose De quem canta soluçando, Vê a esperança mermando E o tempo louco a girar Vai desbotando o olhar Voando em asas de vento, Pra não ver passar o tempo Vivemos sempre a passar.
É nessa hora que a saudade Com afiadas esporas Rasga a alma, nos devora, Com fúrias de temporais O tempo geme seus ais Sem nunca, nunca parar, Parando, sem se notar. Nós, que por ele passamos Pelos caminhos que cruzamos Jamais nos deixa voltar!
É tão fugaz esse tempo E tão perene a saudade! Parece uma eternidade Quando se vive a esperar O tempo doce de amar, Que foge por entre os dedos, Rasurando seus segredos Que nunca conta a ninguém. Assim nesse vai e vem Ficamos fingindo esperas Sabendo que a primavera, Parte no próximo trem.
A saudade não se inventa, E não imita ninguém Esse jeito que ela tem, De pisar tão dolorido, Num pobre sonho caído Que teima em se levantar Que insiste ainda alcançar 0 que um dia foi sorriso... E hoje um verso partido, Que o tempo não quer juntar!
Quisera prender o tempo, Palanquear o destino Entender o desatino Que fica dentro da gente, Com aroma permanente Num amargo adocicado Com gostinho de pecado Alongando as madrugadas... Nas lembranças remendadas De um soneto inacabado...