O Último Retirante
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Me urbanizei, de repente, Contra a própria vontade: Mais por necessidade... Do que por... Inconsequente, Mas... Mesmo de corpo ausente Minha alma ficou por lá, Nalgum pé de araçá, Colhendo amora e pitanga... Ouvindo a água da sanga E a flauta de um sabiá.
Deixei, nacos de passado E um século de família, Nas paredes, nas mobílias, Do rancho, tosco, barreado, De santa fé, bem quinchado, Bem do feitio da querência, Que a gente, por inocência, Sem nunca entrar num castelo, Sabe que um rancho singelo, Fica em nós, mesmo na ausência.
Ficou o poço, silente, Com sua moldura de pedra, Espelho, que, quando quebra É igual à alma da gente, Desce o balde, na corrente, Volta vazando caquinhos, Derramando aos pouquinhos A refletir, inclemente... Todo passado e presente, Que carregamos, sozinhos.
Do alto deste edifício De longe, o campo me acena, A vida agora é pequena... Muda o costume, o ofício, Só não nos muda algum vício, De matear e fazer verso. A saudade é o reverso De um pôr de sol, no horizonte, Vivendo em nós o que ontem, Foi nossa luz e universo.
A noite é de assombração Relinchos e manotaços, Adagas, tinindo o aço, Tempos de revolução, Luta de irmão contra irmão, Morrendo a troco de nada, Por uma bandeira trocada Por interesse comum, Onde comanda, só um E a tropa?... Vai repontada.
Me urbanizei, de repente... A sombra que me acompanha, Não é a mesma da campanha, Secaram a sua nascente. Segue o rodeio da mente Apartando as incertezas. As raízes ficam presas, Mesmo que as folhas se espalhem Pra longe, onde pouco valem, Além de um prato na mesa.
Enfim, a vida de agora, Além de educar os filhos É seguir, sobre dois trilhos, Feito um vagão indo embora... Minha alma ficou lá fora, Campereando, pelas grotas. Eu sou só um par de botas Apartadas das esporas Cruzando pelas auroras... Com meu passado nas costas.